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Falta de combustível deixa aviões no chão e lavouras em risco

Uma manutenção na única refinaria que produz gasolina de aviação no país provocou a paralisação de metade da frota de aviões agrícolas; entenda os impactos

15 de janeiro de 2019 às 17h07

Um problema de manutenção (que teria sido programada e iniciada em novembro) na única linha de produção de gasolina de aviação (avgas) do País, na Refinaria Presidente Bernardes (RPBC), em Cubatão (SP), colocou a aviação agrícola brasileira à beira de um colapso, em plena safra. Faltou combustível para pelo menos metade da frota aeroagrícola nacional – que é a segunda maior do mundo, com mais de 2,1 mil aeronaves. Situação que ainda teve a “ajuda” de uma falha de logística no plano B da Petrobras: a compra de avgas importada, que ou não ocorreu na quantidade certa ou foi feita com atraso.

Os primeiros sinais de complicações foram relatados por empresários aeroagrícolas ainda em dezembro ao Sindag, que entrou janeiro cobrando informações e solução para um desastre anunciado. Quadro que só não vai se concretizar, ao que tudo indica, pela interferência da Presidência da República no caso, determinando a prioridade na liberação da carga de um navio de avgas que teria chegado no final de semana ao porto de Santos. Some-se a isso a chamada de todos os setores atingidos à mesa, nas próximas semanas, para definir um plano de contingência eficiente.

No Rio Grande do Sul situação só não foi pior devido ao mau tempo

São Paulo

O problema foi mais intenso em São Paulo, onde em torno de 30 aviões agrícolas chegaram a parar por vários dias e a escassez chegou na quinta-feira, dia 10,  também aos aeroportos regionais. Entre os paulistas, o maior efeito negativo foi nas culturas da cana-de-açúcar (do qual o Estado produz 80% da safra nacional) e da soja, em plena época de combate à cigarrinha de raiz e broca da cana, além das pulverizações de fungicida contra a ferrugem asiática e de aplicação de fertilizantes.

Algumas lavouras puderam ser atendidas pelo remanejo temporário de aviões a etanol ou querosene de aviação (QAV), mas sem muito fôlego de aviões já bastante requisitados em suas áreas originais. Outras tiveram que contar com equipamentos terrestres onde era possível entrar rodando (com perdas por amassamento e injúrias nas plantas).

Paradoxo

Já no Rio Grande do Sul, o desastre anunciado era muito maior e, ao menos até agora, foi por um triz. Os gaúchos têm a maior frota movida a avgas do País (maior parte de seus 427 aviões) e só não parou totalmente porque o tempo chuvoso das últimas semanas restringiu as operações. Os empresários que ainda tinham avgas chegaram ao sábado com combustível para dois dias de operações. Com isso, nas lavouras de soja (terceiro maior produtor nacional) e de arroz (70% da produção do País), enquanto o combustível não chegar de fato, operadores aeroagrícolas e produtores enfrentam um paradoxo tenso:

A mesma chuva que restringiu as operações aéreas nas últimas semanas, principalmente na fronteira oeste, será determinante para a emergência de aplicações assim que o tempo firmar. Tanto pelo risco de fungos no tempo quente e úmido, quanto para aplicação de fertilizantes nas culturas.

Aliás, os aviões que ainda voavam nos últimos dias mostraram uma vantagem crucial da ferramenta: nas curtas janelas de bom tempo em algumas regiões gaúchas, os pilotos conseguiam decolar e fazer aplicações sobre lavouras inteiras antes da virada do tempo. Se no arroz irrigado já é muito difícil tratar as lavouras com trator nas quadras cheias de água, na soja a aplicação terrestre se torna inviável em um terreno lamacento onde rodas atolam e devastam fileiras de plantas.

Para entender os tipos de combustíveis:

Gasolina de aviação (avgas) – Combustível de alta octanagem e que equipa aviões com motores a pistão. Pelo menos metade da frota aeroagrícola nacional utiliza esse combustível que é o que está faltando no País.

Etanol – Também usado em motores a pistão. É o mesmo combustível utilizado nos automóveis e atende em torno de 35% da frota nacional. Principalmente em São Paulo e outros Estados grandes produtores de cana, onde seu preço é menor e ele se torna mais competitivo.

Querosene de aviação (QAV) – Combustível para aviões turboélices, que são mais potentes e bem maiores (mais rápidos e maior capacidade de carga). É tipo de avião utilizado para operações em áreas maiores e representa 15% da frota brasileira no setor.

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Falta de combustível deixa aviões no chão e lavouras em risco

Uma manutenção na única refinaria que produz gasolina de aviação no país provocou a paralisação de metade da frota de aviões agrícolas; entenda os impactos

15 de janeiro de 2019 às 17h07

Um problema de manutenção (que teria sido programada e iniciada em novembro) na única linha de produção de gasolina de aviação (avgas) do País, na Refinaria Presidente Bernardes (RPBC), em Cubatão (SP), colocou a aviação agrícola brasileira à beira de um colapso, em plena safra. Faltou combustível para pelo menos metade da frota aeroagrícola nacional – que é a segunda maior do mundo, com mais de 2,1 mil aeronaves. Situação que ainda teve a “ajuda” de uma falha de logística no plano B da Petrobras: a compra de avgas importada, que ou não ocorreu na quantidade certa ou foi feita com atraso.

Os primeiros sinais de complicações foram relatados por empresários aeroagrícolas ainda em dezembro ao Sindag, que entrou janeiro cobrando informações e solução para um desastre anunciado. Quadro que só não vai se concretizar, ao que tudo indica, pela interferência da Presidência da República no caso, determinando a prioridade na liberação da carga de um navio de avgas que teria chegado no final de semana ao porto de Santos. Some-se a isso a chamada de todos os setores atingidos à mesa, nas próximas semanas, para definir um plano de contingência eficiente.

No Rio Grande do Sul situação só não foi pior devido ao mau tempo

São Paulo

O problema foi mais intenso em São Paulo, onde em torno de 30 aviões agrícolas chegaram a parar por vários dias e a escassez chegou na quinta-feira, dia 10,  também aos aeroportos regionais. Entre os paulistas, o maior efeito negativo foi nas culturas da cana-de-açúcar (do qual o Estado produz 80% da safra nacional) e da soja, em plena época de combate à cigarrinha de raiz e broca da cana, além das pulverizações de fungicida contra a ferrugem asiática e de aplicação de fertilizantes.

Algumas lavouras puderam ser atendidas pelo remanejo temporário de aviões a etanol ou querosene de aviação (QAV), mas sem muito fôlego de aviões já bastante requisitados em suas áreas originais. Outras tiveram que contar com equipamentos terrestres onde era possível entrar rodando (com perdas por amassamento e injúrias nas plantas).

Paradoxo

Já no Rio Grande do Sul, o desastre anunciado era muito maior e, ao menos até agora, foi por um triz. Os gaúchos têm a maior frota movida a avgas do País (maior parte de seus 427 aviões) e só não parou totalmente porque o tempo chuvoso das últimas semanas restringiu as operações. Os empresários que ainda tinham avgas chegaram ao sábado com combustível para dois dias de operações. Com isso, nas lavouras de soja (terceiro maior produtor nacional) e de arroz (70% da produção do País), enquanto o combustível não chegar de fato, operadores aeroagrícolas e produtores enfrentam um paradoxo tenso:

A mesma chuva que restringiu as operações aéreas nas últimas semanas, principalmente na fronteira oeste, será determinante para a emergência de aplicações assim que o tempo firmar. Tanto pelo risco de fungos no tempo quente e úmido, quanto para aplicação de fertilizantes nas culturas.

Aliás, os aviões que ainda voavam nos últimos dias mostraram uma vantagem crucial da ferramenta: nas curtas janelas de bom tempo em algumas regiões gaúchas, os pilotos conseguiam decolar e fazer aplicações sobre lavouras inteiras antes da virada do tempo. Se no arroz irrigado já é muito difícil tratar as lavouras com trator nas quadras cheias de água, na soja a aplicação terrestre se torna inviável em um terreno lamacento onde rodas atolam e devastam fileiras de plantas.

Para entender os tipos de combustíveis:

Gasolina de aviação (avgas) – Combustível de alta octanagem e que equipa aviões com motores a pistão. Pelo menos metade da frota aeroagrícola nacional utiliza esse combustível que é o que está faltando no País.

Etanol – Também usado em motores a pistão. É o mesmo combustível utilizado nos automóveis e atende em torno de 35% da frota nacional. Principalmente em São Paulo e outros Estados grandes produtores de cana, onde seu preço é menor e ele se torna mais competitivo.

Querosene de aviação (QAV) – Combustível para aviões turboélices, que são mais potentes e bem maiores (mais rápidos e maior capacidade de carga). É tipo de avião utilizado para operações em áreas maiores e representa 15% da frota brasileira no setor.

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