A aviação agrícola e o caso da aranha surda

O avião é lembrado e atacado não porque é a ferramenta mais perigosa, mas porque é geralmente visto aplicando agrotóxicos

16 de maio de 2019 às 10h06

Em 1989, uma anedota contada na aula de Lógica e Metodologia, no início do curso de Jornalismo, na Unversidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), falava de um homem que fez a seguinte experiência: ele segurou uma aranha pressionando-a com o dedo indicador sobre a mesa e arrancou-lhe uma das pernas. Em seguida, disse “corre, aranha.” O inseto tentou escapar e ele tornou a segurar, puxando-o de volta e arrancando-lhe mais uma pata. E disse de novo: “corre”.  Ele repetiu a operação mais seis vezes, com o inseto a cada tentativa tendo mais dificuldade em se arrastar. Até que, já sem patas, na última ordem “corre, aranha”, ela não se moveu. A conclusão anotada no relatório, segundo sua lógica: “Aranha, sem patas, fica surda.”

O caso da aranha surda reflete a lógica torta (ou total falta dela) que aparece seguidamente quando se estuda fenômenos de estereótipos, que por sua vez são mais fortes (e potencialmente danosos) à medida que paixões (ou medos) tomam o espaço da racionalidade. No agronegócio, há algum tempo a “aranha surda” vem sendo a aviação agrícola.

A demonstração mais recente disso ocorreu nesta semana no Paraná, quando na terça-feira, dia 14, o projeto do deputado estadual Tadeu Veneri (PT) para proibir a pulverização aérea no estado foi discutido na Comissão de Constituição e Justiça e segue tramitando. A justificativa da proposta apresentada no ano passado por Veneri relaciona uma série de argumentos contra os agrotóxicos, como casos de contaminações risco de doenças e o fato de que o Brasil é seu maior consumidor, etc. Solução para a problemática: proibir a aviação, justamente a única ferramenta de aplicação que há 50 anos possui regulamentação própria e, por isso, é a também única que pode ser diretamente fiscalizada.

Na verdade, o parlamentar paranaense está seguindo uma cartilha que já gerou outros projetos de proibição semelhantes no País, onde muitas vezes até os textos de suas justificativas são iguais e na grande maioria dos casos as propostas acabam rejeitadas. No Ceará, onde a proposta acabou passando no final de dezembro – colocada junto em um pacote de projetos com diversas leis orçamentárias votadas a roldão antes do recesso parlamentar – entidades do setor produtivo agora se esforçam em mostrar ao governo local e aos parlamentares as consequências imediatas da norma na fruticultura. Entre elas, a necessidade de usar oito vezes mais calda de produtos nas aplicações terrestres, que, no caso de algumas culturas, precisam ser feitas vezes por trabalhadores a pé, com bombas costais.

Discussão no Paraná é sintomática de um debate necessário, mas que ainda é tratado de forma rasa Foto: Dálie Felberg/Alep

Faltou considerar que os mesmos produtos aplicados por aeronaves são usados também por equipamentos terrestres, e com os mesmos riscos. Além disso, a quantidade a ser usada em uma lavoura não muda, independente da ferramenta, porque o que conta é o tipo de produto para combater que tipo de praga e em que extensão.

No caso do Paraná, o projeto também não leva em conta que, apesar do Estado possuir 134 aviões agrícolas, segundo a Anac, tem uma frota de 55.721 pulverizadores terrestres, segundo o Censo Agropecuário de 2006 do IBGE. Em todo o País, são 2.194 aeronaves agrícolas, para quase 600 mil pulverizadores terrestres.

Além disso, aviões, tratores ou pulverizadores costais têm os mesmos riscos, inclusive o de deriva (que é quando o produto se desvia do alvo). Como comprovou o teste de campo feito em novembro de 2017, em Goiás, pela Universidade de Rio Verde, Instituto Federal Campus Rio Verde e diversas outras entidades. Deriva que, aliás, que ocorre quando não são observados parâmetros de velocidade do vento, temperatura e umidade relativa do ar. E até aí o avião tem um diferencial positivo importante: sua velocidade permite que ele conclua toda a operação antes que qualquer um desses parâmetros se altere.

E, definitivamente, não há perdas de 80% nas aplicações aéreas, assim como é inconcebível considerar que apenas 1% dos produtos aplicados por aeronaves atinjam as plantas, como cita o projeto paranaense, na confusa matemática em sua justificativa. O que pode ser comprovado por um exercício de lógica elementar: uma operação aérea em uma lavoura é, em princípio, mais cara do que uma operação com trator ou outros pulverizadores terrestres.

Só que ela se torna economicamente muito mais vantajosa no fim, pela alta produtividade. Simplesmente porque aproveita melhor os produtos aplicados e evita o retrabalho. O que, em última instância, significa menos produtos.

Se a alegação do deputado tivesse fundamento, o próprio mercado já teria extinto a aviação agrícola – e ela não estaria fazendo 72 anos de Brasil em agosto e nem completando seu centenário no mundo daqui a dois anos. Ainda mais levando em conta que aplicação de produtos para a proteção das lavouras representa a parcela mais alta dos custos de produção (nenhum produtor suportaria a despesa de uma perda de 80%). O que também comprova que nenhum agricultor usa agrotóxicos simplesmente porque quer. E, quando o faz, é para que seja o mínimo possível.

Além disso, quando o avião voa, não há ninguém na lavoura. Quase todo o quadro de pessoal envolvido tem que ser especialista – desde o piloto agrícola até o agrônomo, passando pelo técnico agrícola (time obrigatório para as empresas do setor).

Os produtos são preparados na pista, ou seja, não há embalagens no meio das lavouras, matos ou beira de cursos d´água. Aliás, a própria limpeza do avião (após a pulverização feita depois da tríplice lavagem) é realizada em um pátio de descontaminação (estrutura obrigatória por lei nas empresas aeroagrícolas), onde eventuais resíduos vão para um sistema de tratamento de efluentes – estrutura que só aviação tem.

Para completar, todos as operações geram relatórios com dados desde produto, quantidade aplicada, regulagem dos equipamentos e até o mapa do DGPS do avião – que registra cada passada do avião com uma precisão de centímetros e até onde o sistema foi aberto e fechado (tudo inviolável). Esses relatórios têm cópia enviada mensalmente para o Ministério da Agricultura e originais guardados na empresa obrigatoriamente à disposição de qualquer fiscalização.

Não se trata aqui de dizer que ferramenta é melhor do que qual. Até porque todas são importantes na lavoura e, muitas vezes, complementares. Além disso, está mais do que claro que atacar qualquer ferramenta não é o caminho. O foco são as boas práticas.

A conclusão é que, ironicamente, o avião é lembrado e atacado não porque é a ferramenta mais perigosa. Mas porque é a mais vista aplicando agrotóxicos. Em última instância, vítima de sua própria transparência. O risco disso, como demonstra o caso do projeto paranaense, é deixar raso um debate que precisa ser profundo, amplo e racional. E, apostando na surdez da aranha, tais iniciativas gerem efeitos justamente contrários ao que alegadamente propõem.

Vítima de estereótipo, o setor aeroagrícola é combatido, ironicamente, por ser transparente Foto: Wellington Carvalho

A aviação agrícola e o caso da aranha surda

O avião é lembrado e atacado não porque é a ferramenta mais perigosa, mas porque é geralmente visto aplicando agrotóxicos

16 de maio de 2019 às 10h06

Em 1989, uma anedota contada na aula de Lógica e Metodologia, no início do curso de Jornalismo, na Unversidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), falava de um homem que fez a seguinte experiência: ele segurou uma aranha pressionando-a com o dedo indicador sobre a mesa e arrancou-lhe uma das pernas. Em seguida, disse “corre, aranha.” O inseto tentou escapar e ele tornou a segurar, puxando-o de volta e arrancando-lhe mais uma pata. E disse de novo: “corre”.  Ele repetiu a operação mais seis vezes, com o inseto a cada tentativa tendo mais dificuldade em se arrastar. Até que, já sem patas, na última ordem “corre, aranha”, ela não se moveu. A conclusão anotada no relatório, segundo sua lógica: “Aranha, sem patas, fica surda.”

O caso da aranha surda reflete a lógica torta (ou total falta dela) que aparece seguidamente quando se estuda fenômenos de estereótipos, que por sua vez são mais fortes (e potencialmente danosos) à medida que paixões (ou medos) tomam o espaço da racionalidade. No agronegócio, há algum tempo a “aranha surda” vem sendo a aviação agrícola.

A demonstração mais recente disso ocorreu nesta semana no Paraná, quando na terça-feira, dia 14, o projeto do deputado estadual Tadeu Veneri (PT) para proibir a pulverização aérea no estado foi discutido na Comissão de Constituição e Justiça e segue tramitando. A justificativa da proposta apresentada no ano passado por Veneri relaciona uma série de argumentos contra os agrotóxicos, como casos de contaminações risco de doenças e o fato de que o Brasil é seu maior consumidor, etc. Solução para a problemática: proibir a aviação, justamente a única ferramenta de aplicação que há 50 anos possui regulamentação própria e, por isso, é a também única que pode ser diretamente fiscalizada.

Na verdade, o parlamentar paranaense está seguindo uma cartilha que já gerou outros projetos de proibição semelhantes no País, onde muitas vezes até os textos de suas justificativas são iguais e na grande maioria dos casos as propostas acabam rejeitadas. No Ceará, onde a proposta acabou passando no final de dezembro – colocada junto em um pacote de projetos com diversas leis orçamentárias votadas a roldão antes do recesso parlamentar – entidades do setor produtivo agora se esforçam em mostrar ao governo local e aos parlamentares as consequências imediatas da norma na fruticultura. Entre elas, a necessidade de usar oito vezes mais calda de produtos nas aplicações terrestres, que, no caso de algumas culturas, precisam ser feitas vezes por trabalhadores a pé, com bombas costais.

Discussão no Paraná é sintomática de um debate necessário, mas que ainda é tratado de forma rasa Foto: Dálie Felberg/Alep

Faltou considerar que os mesmos produtos aplicados por aeronaves são usados também por equipamentos terrestres, e com os mesmos riscos. Além disso, a quantidade a ser usada em uma lavoura não muda, independente da ferramenta, porque o que conta é o tipo de produto para combater que tipo de praga e em que extensão.

No caso do Paraná, o projeto também não leva em conta que, apesar do Estado possuir 134 aviões agrícolas, segundo a Anac, tem uma frota de 55.721 pulverizadores terrestres, segundo o Censo Agropecuário de 2006 do IBGE. Em todo o País, são 2.194 aeronaves agrícolas, para quase 600 mil pulverizadores terrestres.

Além disso, aviões, tratores ou pulverizadores costais têm os mesmos riscos, inclusive o de deriva (que é quando o produto se desvia do alvo). Como comprovou o teste de campo feito em novembro de 2017, em Goiás, pela Universidade de Rio Verde, Instituto Federal Campus Rio Verde e diversas outras entidades. Deriva que, aliás, que ocorre quando não são observados parâmetros de velocidade do vento, temperatura e umidade relativa do ar. E até aí o avião tem um diferencial positivo importante: sua velocidade permite que ele conclua toda a operação antes que qualquer um desses parâmetros se altere.

E, definitivamente, não há perdas de 80% nas aplicações aéreas, assim como é inconcebível considerar que apenas 1% dos produtos aplicados por aeronaves atinjam as plantas, como cita o projeto paranaense, na confusa matemática em sua justificativa. O que pode ser comprovado por um exercício de lógica elementar: uma operação aérea em uma lavoura é, em princípio, mais cara do que uma operação com trator ou outros pulverizadores terrestres.

Só que ela se torna economicamente muito mais vantajosa no fim, pela alta produtividade. Simplesmente porque aproveita melhor os produtos aplicados e evita o retrabalho. O que, em última instância, significa menos produtos.

Se a alegação do deputado tivesse fundamento, o próprio mercado já teria extinto a aviação agrícola – e ela não estaria fazendo 72 anos de Brasil em agosto e nem completando seu centenário no mundo daqui a dois anos. Ainda mais levando em conta que aplicação de produtos para a proteção das lavouras representa a parcela mais alta dos custos de produção (nenhum produtor suportaria a despesa de uma perda de 80%). O que também comprova que nenhum agricultor usa agrotóxicos simplesmente porque quer. E, quando o faz, é para que seja o mínimo possível.

Além disso, quando o avião voa, não há ninguém na lavoura. Quase todo o quadro de pessoal envolvido tem que ser especialista – desde o piloto agrícola até o agrônomo, passando pelo técnico agrícola (time obrigatório para as empresas do setor).

Os produtos são preparados na pista, ou seja, não há embalagens no meio das lavouras, matos ou beira de cursos d´água. Aliás, a própria limpeza do avião (após a pulverização feita depois da tríplice lavagem) é realizada em um pátio de descontaminação (estrutura obrigatória por lei nas empresas aeroagrícolas), onde eventuais resíduos vão para um sistema de tratamento de efluentes – estrutura que só aviação tem.

Para completar, todos as operações geram relatórios com dados desde produto, quantidade aplicada, regulagem dos equipamentos e até o mapa do DGPS do avião – que registra cada passada do avião com uma precisão de centímetros e até onde o sistema foi aberto e fechado (tudo inviolável). Esses relatórios têm cópia enviada mensalmente para o Ministério da Agricultura e originais guardados na empresa obrigatoriamente à disposição de qualquer fiscalização.

Não se trata aqui de dizer que ferramenta é melhor do que qual. Até porque todas são importantes na lavoura e, muitas vezes, complementares. Além disso, está mais do que claro que atacar qualquer ferramenta não é o caminho. O foco são as boas práticas.

A conclusão é que, ironicamente, o avião é lembrado e atacado não porque é a ferramenta mais perigosa. Mas porque é a mais vista aplicando agrotóxicos. Em última instância, vítima de sua própria transparência. O risco disso, como demonstra o caso do projeto paranaense, é deixar raso um debate que precisa ser profundo, amplo e racional. E, apostando na surdez da aranha, tais iniciativas gerem efeitos justamente contrários ao que alegadamente propõem.

Vítima de estereótipo, o setor aeroagrícola é combatido, ironicamente, por ser transparente Foto: Wellington Carvalho