No mundo inteiro, a produção e o consumo de leite são tratados como política de estado… no Brasil, que o mercado resolva!

Sabem quais são os produtos mais controlados e regulamentados no comércio mundial? Leite e açúcar.

O quarto maior produtor mundial de leite gastou em 2016, quase R$ 2 bilhões para comprar leite e derivados do Uruguai e da Argentina. Que vivam os cooperados produtores de leite da CONAPROLE e as 912 indústrias argentinas, mas não à custa da morte dos nossos 1,1 milhão de produtores, e outros três milhões de trabalhadores.

De um lado, que se danem os produtores de leite do Brasil. 80% dos quais são pequenos produtores, ou seja, aproximadamente quatro milhões de pessoas, pelos menos 2/3 deles dependendo desse salário mínimo para não pedir esmolas das bolsas e cestas de governantes populistas.

De outro lado, crianças, grávidas e velhos (com ou sem osteoporose), dezenas de pobres com deficiências nutricionais (nesse país com mais de quarenta milhões de pobres) que podem ser compensadas pelas extraordinárias propriedades nutricionais do leite e seus derivados (excluídos algo como 10% das pessoas que não se adaptam ao leite).

Quanto aos produtores? Que sobrevivam os mais competitivos, sem falar nas condições diferenciadas de produção. Sejam bem-vindas as importações do Mercosul, com imposto zero. Paulo do Carmo (Embrapa) responde: não, trata-se de Política de Estado!

Enquanto isso, na desenvolvida Europa, os governos pagam aos donos de cada vaca leiteira valores que superam a renda per capita de mais da metade dos países do mundo. Os subsídios e subvenções abundam nos EUA, na União Europeia, no Japão, na Nova Zelândia. Aqui do lado, nossa vizinha Argentina paga aos produtores 40 pesos por litro de leite entregue às indústrias.

Os governos subsidiam seus produtores de leite e protegem o país das importações desnecessárias com impostos altíssimos sobre importações (para alguns tipos de queijo, ultrapassam 80%), e impõe barreiras técnicas e burocráticas difíceis de se contornar. E todos esses “desvios da economia de mercado” foram, espertamente, consolidados na OMC, nos Acordos firmados ao final da Rodada Uruguai, com a assinatura do Brasil. Agora pode mudar? Não, não há mais negociações!

Os produtores de leite do Brasil não são contra as importações de lácteos, desde que praticadas em condições leais de concorrência. Nada contra a tese de que as economias devem ser abertas e ter coeficientes de comércio sobre o PIB bem maior do que o baixo índice brasileiro, sobretudo quando comparado com países asiáticos, embora estejamos próximos dos percentuais dos Estados Unidos da América.

Mas não esqueçamos, os países defendem o livre-comércio quando e nos setores que interessam, mas praticam o inverso. Aqui do lado, o Uruguai não permite que o Brasil lhe exporte mais que 200 toneladas de carne de aves por ano. A Argentina não permite que lhe exportemos açúcar com tarifa zero.

Afirmar que sobrevivam os mais competitivos, para alegria dos consumidores, dos burocratas da Fazenda, e da concorrência soa como ingenuidade da velhinha de Taubaté num jogo bruto, manipulado e egoísta do mercado mundial de lácteos. Beira a irresponsabilidade, quando está em jogo, nada menos que 4 milhões de pessoas.

Como se não bastasse, os governos do Brasil elegeram determinados segmentos para receber apoio às exportações a determinados países, e, em compensação, oferecer outros segmentos nacionais importantes como moeda de troca. Pois, é isso que acontece no comércio de autopeças e veículos versus lácteos. Em nome de quem, autorizados por quem?

Como quatro milhões de trabalhadores no campo podem engulir isso? Comércio livre no Mercosul vale para lácteos, mas não vale para o setor automobilístico que emprega menos que a cadeia produtiva de lácteos? Quem responde ??

Obs: “Na PARTE II tratarei de competitividade e preços do leite”

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