China x EUA: não existe guerra comercial, mas disputa por hegemonia

O ringue da história reservou para este século uma disputa entre um império destinado a ser dominante que irá desbancar um outro, e assim, ocupar a hegemonia mundial

Se houvesse uma guerra comercial, os exportadores brasileiros poderiam esperar por acordos ou batalha final, além da superação de interferências nas exportações de soja, açúcar, carne de aves, entre outras. Na verdade, o buraco é mais embaixo.

O ringue da história reservou para este século uma disputa entre um império destinado a ser dominante que irá desbancar um outro, e assim, ocupar a hegemonia mundial, por muito tempo, até surgir outro ou outros candidatos ao posto.

A palavra guerra não é adequada e dificulta a compreensão da real dimensão dos fatos presentes. A rigor, não assistimos a um confronto no qual um aniquilará o inimigo. As guerras, sim, têm esse objetivo, e num determinado prazo.

Aqui não existem alvo a ser destruído, mas todos os alvos que ajudem o adversário. Mais precisamente, o ideal para a China é superar os EUA em tudo que puder, mas não arrebentar e subjugá-lo. Em outra conjuntura histórica, o império grego teria que liquidar militarmente o persa; o britânico com o francês, etc. Mas, nos nossos dias, a disputa não é mais dessa forma.

Por esse motivo, a opinião pública mundial não leva tão a sério as ameaças da Coreia do Norte ou as atuais da Rússia. Todos perdem, e muito, e quem ganhar militarmente estará destroçado. Atualmente, para superar um império requer tempo, prazo para a colheita de gerações de novos cientistas e peritos, e vigor em várias frentes decisivas, com destaque para o domínio de tecnologias aplicadas não apenas na economia, mas também na segurança militar e no exercício do poder e da influência mundial de forma planejada.

A China vem fazendo bem o seu dever de casa, ao contrário do Brasil. Os investimentos dos EUA na China e vice-versa, a integração do sistema produtivo mundial e o efeito desastroso para todos de um confronto aberto animam os otimistas a acreditar na moderação factual em que pese as declarações incisivas.

Muitos economistas projetam que em 2030 o PIB da China irá superar o dos EUA. Na área militar, vai levar muito mais tempo. A China ainda está construindo sua versão de um “Vale do Silício” maior do que o da Califórnia. Os investimentos chineses em energia limpa e renovável, infraestrutura e logística pelo mundo afora já superam os EUA. Os países mais importantes no comércio mundial estão cada vez mais dependentes das compras chinesas. Mas falta muito e tardará menos na medida em que os EUA continuem cometendo erros (multiplicados no governo Trump), dentre os quais uma postura distanciada, indiferente ou agressiva com tradicionais países aliados ou emergentes.

Escutei do embaixador da China a afirmação, durante debate numa rede de televisão francesa, que o ocidente não deveria estranhar o fato de a China vir a ser a maior potência econômica do mundo, pois, afinal, sempre foi, exceto nos últimos 300 anos.

A Revolução Industrial brotou no ocidente e cumpriu seu ciclo inicial. A Ásia, e o “Império do Meio”, em particular, recuperaram o terreno perdido e estão caminhando para a vanguarda.

No tema econômico-financeiro, tudo indica que os EUA são mais vulneráveis pois dependem de produtos chineses para o abastecimento interno de bens intermediários e de consumo e, portanto, para segurar a inflação. Já a China, sem o mercado norte-americano, terá maior desaquecimento na economia, mas tem reservas cambiais e comércio com tantos países que lhes asseguram segurança de abastecimento em geral, inclusive alimentar.

E o Brasil?

Todos ressaltam que a China já é o nosso maior parceiro comercial. Comprou em 2018 mais de US$60 bilhões do Brasil e nos vende só U$ 32 bilhões, “aceitando” um déficit de US$28 bilhões por ano. Não menospreze o fato de que apenas soja-grão representa 42% do total e, que somada a minério de ferro e petróleo bruto, alcança-se 80% do valor exportado.

Em troca, de lá compramos produtos industrializados. Não por acaso, a relação é similar à que tivemos com o império britânico. Então, nós é que falhamos por não diversificarmos a pauta de exportações para a China? Do outro lado, a resposta é conhecida: a China está aberta a importações diversificadas.

Ingenuidade à parte, foi a mesma resposta do embaixador chinês ao presidente da “CNI da França”, no mencionado debate na TV, 20 anos atrás.

De qualquer maneira, as exportações brasileiras de matérias-primas e alimentos, são necessários à China (por isso nos compram) e importantes para nós. Neste cenário, duas perguntas fundamentais não querem calar:

1 – Até quando a China precisará de nossas exportações de matérias-primas e alimentos? O quadro internacional é complexo, e são tantas as variáveis intervenientes que tornam o exercício de resposta um tanto quanto temerário. Mas, ouso afirmar que não houve alternativa nem para a China nem para a Europa de suprir suas necessidades de proteína vegetal (para viabilizar suas criações animais) que não fosse baseada na “santa” soja (complementada pelo milho).

E o futuro, continuará assim e por quantas décadas? A inovação tecnológica pode quase tudo, inclusive mudar este quadro. Enquanto isso, ó brasileiros, plantem soja e se esforcem para diversificar suas vendas à Ásia de derivados dos nossos animais que comem soja e milho (mas não menosprezem os resultados negativos com o açúcar frango para a China).

2 – A disputa com os EUA nos beneficia ou pode nos prejudicar? Essa segunda questão tem, aparentemente, resposta mais previsível. Como não é uma guerra, a disputa é renhida e longa. Portanto, bom para a China depender menos do adversário e prejudicá-lo sempre que possível.

Isto significa que brasileiros, argentinos e indianos terão mais espaço favorável para entrar no mercado chinês. Eventuais concessões aos EUA serão feitas, mas nada para ajudar o adversário, só para contornar impasses na longa disputa.

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