Por que a mulher ganha 26% menos que o homem?

Resposta direta de um leitor na coluna Fórum dos Leitores do Estadão, publicada neste sábado, dia 9: “O homem se aposenta mais tarde e trabalha mais. Logo, tem que receber mais. Simples assim”. O argumento procede, mas a questão não é simples assim; é mais complexa.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) detectou que, em 2018, o rendimento médio mensal das mulheres com idade entre 25 e 49 anos foi de R$2.050,00. Esse valor corresponde a 26% menos que o recebido pelos homens da mesma faixa etária. O primeiro problema é que a pesquisa não ajuda a clarear a situação ao se comparar rendimentos por faixa etária e não tipos de empregos.

A jornalista Daniela Amorim comenta, em matéria publicada neste mesmo jornal, que os afastamentos ao longo da carreira feminina explicam parte dessa desigualdade, nesta faixa de idade. Tem razão. A ausência no trabalho em função da maternidade tira competitividade frente ao homem. É que durante o afastamento, que no Brasil pode chegar a quase meio-ano, uma determinada empresária tem que contratar outra pessoa para substituir aquela mulher, com todo o ônus que isso implica, inclusive o recolhimento da contribuição ao INSS (o que somente será ressarcido em prazo de até um ano).

Em que pesem as enormes diferenças entre os dois países, nos EUA as empresas podem admitir a ausência após o parto por até 3 meses e não são obrigadas a remunerar a funcionária durante a ausência. Aquelas que não ganham tratam de retornar logo ao trabalho para voltar a receber seu salário. Assim, o empresário tem um incentivo adicional para investir e gerar empregos.

Retornemos ao tema central. Não se consegue compreender bem esta questão com uma visão descolada de sua realidade de mercado. A mesma pesquisa citada acima também indicou a participação da mão-de-obra feminina da ordem de 95% no setor de serviços domésticos, e de 75% na atividade de limpeza interior de edifícios, escritórios e hotéis. Sem desqualificar qualquer tipo de trabalho, há que se considerar a alta oferta de trabalhadoras para tais postos, o que na regra de mercado significa salários menores para estas categorias. Isso, certamente fez a citada média baixar.

A formação e a capacitação da mão-de-obra são fundamentais para a ocupação pelas mulheres de especialidades do mercado laboral que remuneram melhor. No passado, a participação feminina na etapa de preparação para o ingresso no mercado era muito menor que a dos homens. Nos últimos anos, o quadro mudou. As entidades de ensino e os institutos de treinamento profissionais têm mostrado números que indicam crescente interesse e participação feminina nos respectivos cursos. E isso já está repercutindo no mercado do agronegócio (e nos salários) à medida que mais mulheres qualificadas estão avançando na ocupação de postos não só de agrônomas, veterinárias e zootecnistas, na operação da nova geração de máquinas e equipamentos sofisticados como também no processamento da matéria-prima da agricultura em geral. Tudo isso ajudado pelo fato de que os equipamentos modernos não requerem mais muita força física para operar.  

Outro aspecto interessante é uma mudança de natureza cultural estimulada pela evolução do mercado. Na sociedade tradicional, os fazendeiros e os roceiros tinham vergonha de declarar sua atividade. Preferiam assumir que eram advogados ou médicos e que seus filhos e filhas eram estudantes. Hoje, a geração de agricultores e pecuaristas profissionais modernos têm orgulho de se declarar empresário rural ou profissional técnico especializado. Essa nova geração – de homens e mulheres – entra no mercado com qualificação que vai de cursos de treinamento técnico até a pós-graduação universitária, o que resulta em melhores salários. Em consequência, mulheres passaram a assumir funções no meio rural que lhes conferem não só maior rendimento como também status em atividades que eram rejeitadas. Hoje, a filha do fazendeiro tornou-se pecuarista ou lavourista profissional.

Na faixa da agricultura familiar, embora haja muito que avançar, a sociedade melhorou o conceito dos agricultores (e aí a mulher tem destaque) como segmento que tem valor como agentes econômicos, estabilidade social e que merecem respeito e tratamento diferenciado.

Por derradeiro, nota-se progressos na conscientização da nossa sociedade com relação aos direitos da mulher, onde quer que esteja, inclusive no ambiente de trabalho do meio rural, apesar da persistência de tantos crimes contra as mulheres.  Até pouco tempo, era “normal” escutar a frase: isso não é lugar para mulher, sobretudo se a família a queria seguindo o caminho do matrimônio. O empregador rural tinha complicações adicionais ao contratar mão-de-obra feminina para participar de tarefas num ambiente dominado pelo preconceito, machismo e intolerância em relação a essa presença. Melhorou, embora ainda falte muito, sobretudo em regiões mais remotas.

Resumindo a ópera. O tema não é explicável com respostas simples. Simplesmente porque trata-se de fenômeno social complexo, formado ao longo de trajetória histórica econômica, social, moral e religiosa (aliás, como assim fruto da costela do homem, ainda que figurativamente?).

O que nos anima é que estamos melhorando. É verdade, falta muito. Mas, hei de vivenciar um tempo em que não haverá o dia das mulheres, porque todo os dias serão das mulheres, dos homens, das crianças, dos idosos, de qualquer um independentemente de suas origens, atividades profissionais, opções e preferências.

Até lá, um sorriso amigável às 950 mil mulheres que participam da nação agro, pelo dia oito de março!!

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