Novos lances na disputa entre EUA e China

Foto: Pixabay

O Presidente Trump blefou ou deu xeque-mate nos chineses ao declarar no último domingo que aumentaria, na seguinte sexta-feira, de 10% para 25% os impostos sobre importações de até US$200 bilhões em mercadorias chinesas ?

Não blefou, mas deixou a porta semiaberta para arrancar mais concessões no que, aparentemente, obstáculos inaceitáveis para ambos os lados num eventual acordo: subsídios de  US$ 500 bilhões do governo central chinês aos governos provinciais e empresas estatais para continuar avançando no plano China-2025, e apropriação de tecnologia de ponta de empresas americanas.

Referido plano tem por meta consolidar a China como maior potência industrial, ou mesmo hegemônica, em segmentos de alta tecnologia (fármaco-químico, inteligência artificial e os avanços na indústria 4D, etc.).

Mirando com os olhos da História dos Impérios, observa-se que, na verdade não assistimos a uma mera guerra comercial entre as duas maiores potências econômicas, mas a uma disputa que ainda consumirá décadas para definir quem será a hegemônica. Muitos analistas arriscam que se os EUA não virarem o jogo, isso ocorrerá por volta de 2030.

Como se trata de disputa por hegemonia, e não guerra comercial, os lances no tabuleiro são bastante estudados para causar estragos no outro lado, e se possível, levantar obstáculos intransponíveis. Ocorre que estamos num mundo globalizado, ao contrário de disputas em outros tempos.

Impactos globais de um único lance na disputa

A longa negociação ainda não conseguiu dobrar os chineses a cortar os acima mencionados subsídios (aliás, proibidos pela OMC) e nem tomar (os EUA chamam de roubar) tecnologia das empresas norte-americanas instaladas na China. Um acordo interessa a ambos. A China tende a perder mais em exportações e os EUA para recuperar espaço econômico mundial.

O ousado e firme Trump avançou uma torre no tabuleiro para agressiva posição de ataque . No outro dia, a bolsa de Xangai caiu 5%, as de Frankfurt e São Paulo 1,0%, e a procura de dólar como ativo confiável elevou a cotação da moeda mundo afora.  Para não falar na incerteza sobre a inflação nos EUA.

No meio da semana, o comedido Xi Jinping e o firme Conselho de Estado aceitaram marcar nova reunião para a semana seguinte, com a presença do seu vice primeiro ministro Liu He. Soou como uma espécie de pequeno recuo. Quem não conhece os chineses se ilude pensando que os chineses fizeram ou farão recuo importante, e logo fecharão um acordo que agrade aos EUA, para cortar substancialmente seu superávit comercial da ordem de US$150 bilhões.

Que nossa agricultura exportadora tem a ver com isso ?

O impasse entre as duas potências cria expectativas de menos comércio e investimentos no mundo, vale dizer expansão média do PIB e do comércio na faixa discreta de 3% ao ano. E por conseguinte, menos importações de nossos alimentos e matérias-primas minerais.

Portanto, perdemos no atacado, mas, ganhamos no localizado, porque a China certamente continuará a não colocará muitos ovos na cesta dos EUA. Trata-se de manter estragos políticos e econômicos nos EUA. Logo vale a pena para pacientes negociadores chineses. E se os EUA exagerarem, voltarão a negociar em doses homeopáticas, com compras conjunturais, mas, sem abandonar os seus planos de longo prazo. Isso é típico dos chineses.

A falta compromisso firme e duradouro deve continuar, mesmo com novas rodadas de negociação, porque não corresponde a essa situação em disputa. Assim, é de se esperar que a China continuará privilegiando o Brasil (e a Argentina) na compra de soja (o que implica em prêmios atrativos), milho e carnes (à parte o tema da peste suína e suas implicações).

Próximos lances da disputa

É bem possível um meio-termo de interesse bilateral, de duração conjuntural, e que faça baixar a altura do fogo, inclusive envolvendo pequenas concessões chinesas e recuo da torre para posição intermediária. Porém, é também possível a subida de mais um degrau na batalha, sem fechar as portas para negociações.

Contudo, não acredito em acordo que ponha fim às disputas essenciais. Estas continuarão por muitos anos ainda, até que uma das duas quebre as pernas da outra e a subjugue, como se fez na História dos Impérios. Atualmente, o pêndulo pende para a China, por isso Trump arrisca mais e o chineses fingem que recuam.

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