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Risco de recessão econômica mundial assusta agricultura

Com cenário incerto, exportações brasileiras poderiam sofrer algo parecido com o que ocorreu na crise de 2008

20 de agosto de 2019 às 10h24

Foto: Pixabay

Será, de novo? Lembram-se daquela de 2007/2008? Oxalá não ocorra, mas se confirmarem as previsões de diversas origens, poderá acontecer. Será diferente, porém nociva a todos, e agricultura não ficaria isenta.

Quem está prevendo recessão? Consultores e operadores no mercado financeiro, alarmados com o movimento atual dos bônus com prazos de vencimento mais curtos remunerando melhor que os de longo prazo, o que estaria indicando a proximidade de uma recessão. Este é um movimento típico do clima de pré-pânico no mercado financeiro, alertam os especialistas.

O decantado pouso suave da economia chinesa está se consolidando após o anúncio de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no mês de julho de “apenas” 4,8% (comparado com os 6,3% do ano 2018), o que preocupa por se tratar do nosso maior comprador de alimentos.

Na Europa, o prestigioso jornal Der Spiegel publicou, na última sexta-feira, 16, (na sua tiragem de 850 mil exemplares diários) que o anúncio oficial do recuo do PIB da Alemanha neste segundo trimestre (após crescer apenas 0,4% no primeiro) indica uma provável recessão técnica no carro-chefe da economia do continente. A propósito, o jornal ressalta que a Alemanha é vítima colateral da guerra comercial sino-americana, a qual, aliás, não tem data para terminar.

Por outro lado, analistas realçam o espírito de manada dos investidores e especuladores fugindo para portos menos ariscados, vale dizer para títulos em dólar, o que provoca a sua apreciação nos países emergentes e efeitos sobre a inflação. Com isso, o dólar alto acende o alarme para a agricultura. Como sabemos, alegra a quem exporta e desanima quem produz devido ao custo adicional, especialmente porque o Brasil depende de importações de insumos básicos como fertilizantes e defensivos.

A recessão de 2008 tinha suas características causais e conjunturais, mas isso não prejudica a análise sobre os efeitos negativos de uma eventual nova retração no comércio mundial. A situação não estava boa, e pode piorar. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e outras entidades já estavam prevendo um crescimento menor da economia mundial neste ano, da ordem de 3,2% contra 3.6% em 2018.
Já a Organização Mundial do Comércio (OMC) estima um crescimento do comércio mundial de 2,6% neste ano, contra 3% em 2018 e 6% no início dos anos 1980.

Neste caso, nossas exportações podem sofrer algo parecido com o que ocorreu em decorrência da recessão mundial anterior? Infelizmente, sim. Vejam o resultado daquela recessão sobre nossas exportações do agronegócio: Em 2008, as exportações brasileiras de alimentos básicos e elaborados alcançaram US$ 25,3 bilhões. Os efeitos da crise derrubaram as vendas externas, que caíram para US$ 21 bilhões em 2010, e só voltaram a crescer em 2011, quando atingiram US$ 43 bilhões, segundo dados do Comexstat, do Ministério da Economia.

A demanda mundial por alimentos é sólida, é verdade, mas sujeita a oscilações. Portanto, a dúvida é se haveriam variações fortes ou moderadas nas nossas exportações. Difícil prever, porém, não é arriscado afirmar que diante de um cenário próximo do que ocorreu em 2008, as exportações do agronegócio cairiam, com efeito negativo na formação de renda dos agricultores. Tudo isso, em que pese o fato de o Brasil estar fazendo bonito no plano interno, realizando reformas estruturais que os governos anteriores não fizeram.

Por tudo isso, mesmo tendo em mente que o risco faz parte do negócio, cabe recordar o ensinamento dos experientes navegantes: “durante o nevoeiro, leve o barco devagar”. Para o bom entendedor é claro, modere-se com seus investimentos na agricultura, até que o cenário clareie um pouco mais.

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Risco de recessão econômica mundial assusta agricultura

Com cenário incerto, exportações brasileiras poderiam sofrer algo parecido com o que ocorreu na crise de 2008

20 de agosto de 2019 às 10h24

Foto: Pixabay

Será, de novo? Lembram-se daquela de 2007/2008? Oxalá não ocorra, mas se confirmarem as previsões de diversas origens, poderá acontecer. Será diferente, porém nociva a todos, e agricultura não ficaria isenta.

Quem está prevendo recessão? Consultores e operadores no mercado financeiro, alarmados com o movimento atual dos bônus com prazos de vencimento mais curtos remunerando melhor que os de longo prazo, o que estaria indicando a proximidade de uma recessão. Este é um movimento típico do clima de pré-pânico no mercado financeiro, alertam os especialistas.

O decantado pouso suave da economia chinesa está se consolidando após o anúncio de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no mês de julho de “apenas” 4,8% (comparado com os 6,3% do ano 2018), o que preocupa por se tratar do nosso maior comprador de alimentos.

Na Europa, o prestigioso jornal Der Spiegel publicou, na última sexta-feira, 16, (na sua tiragem de 850 mil exemplares diários) que o anúncio oficial do recuo do PIB da Alemanha neste segundo trimestre (após crescer apenas 0,4% no primeiro) indica uma provável recessão técnica no carro-chefe da economia do continente. A propósito, o jornal ressalta que a Alemanha é vítima colateral da guerra comercial sino-americana, a qual, aliás, não tem data para terminar.

Por outro lado, analistas realçam o espírito de manada dos investidores e especuladores fugindo para portos menos ariscados, vale dizer para títulos em dólar, o que provoca a sua apreciação nos países emergentes e efeitos sobre a inflação. Com isso, o dólar alto acende o alarme para a agricultura. Como sabemos, alegra a quem exporta e desanima quem produz devido ao custo adicional, especialmente porque o Brasil depende de importações de insumos básicos como fertilizantes e defensivos.

A recessão de 2008 tinha suas características causais e conjunturais, mas isso não prejudica a análise sobre os efeitos negativos de uma eventual nova retração no comércio mundial. A situação não estava boa, e pode piorar. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e outras entidades já estavam prevendo um crescimento menor da economia mundial neste ano, da ordem de 3,2% contra 3.6% em 2018.
Já a Organização Mundial do Comércio (OMC) estima um crescimento do comércio mundial de 2,6% neste ano, contra 3% em 2018 e 6% no início dos anos 1980.

Neste caso, nossas exportações podem sofrer algo parecido com o que ocorreu em decorrência da recessão mundial anterior? Infelizmente, sim. Vejam o resultado daquela recessão sobre nossas exportações do agronegócio: Em 2008, as exportações brasileiras de alimentos básicos e elaborados alcançaram US$ 25,3 bilhões. Os efeitos da crise derrubaram as vendas externas, que caíram para US$ 21 bilhões em 2010, e só voltaram a crescer em 2011, quando atingiram US$ 43 bilhões, segundo dados do Comexstat, do Ministério da Economia.

A demanda mundial por alimentos é sólida, é verdade, mas sujeita a oscilações. Portanto, a dúvida é se haveriam variações fortes ou moderadas nas nossas exportações. Difícil prever, porém, não é arriscado afirmar que diante de um cenário próximo do que ocorreu em 2008, as exportações do agronegócio cairiam, com efeito negativo na formação de renda dos agricultores. Tudo isso, em que pese o fato de o Brasil estar fazendo bonito no plano interno, realizando reformas estruturais que os governos anteriores não fizeram.

Por tudo isso, mesmo tendo em mente que o risco faz parte do negócio, cabe recordar o ensinamento dos experientes navegantes: “durante o nevoeiro, leve o barco devagar”. Para o bom entendedor é claro, modere-se com seus investimentos na agricultura, até que o cenário clareie um pouco mais.

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