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Brasil canavieiro: benchmark (ainda não seguido) para o mundo

As usinas de açúcar existentes na década de 1970 investiram na produção de álcool e as destilarias autônomas de etanol, criadas na década de 1980, investiram na produção de açúcar na década de 1990

16 de outubro de 2019 às 18h35

Produzir para ter prejuízo, só por falta de opção.

E é isto que acontece no mundo açucareiro nos últimos três anos, exceto no Brasil. E por que esta diferença? 

A flexibilidade na produção

O Brasil é o único Pais no mundo açucareiro que investiu em flexibilidade relevante de produção de açúcar e etanol, utilizando-se da cana disponível para moagem. Este investimento se deu com recursos do Governo Federal , nas décadas de 1970 e 1980, e com recursos próprios das usinas, principalmente aquelas do Centro-Sul.

Os recursos governamentais das décadas de 1970 e 1980 foram motivados por razões estratégicas, numa época onde cerca de 80% do petróleo consumido no País era importado, comprometendo seriamente nosso Balanço de Pagamentos, e a geopolítica do petróleo recomendava menos dependência de importações.

Os recursos privados foram motivados por ocasião da liberalização do setor do controle do IAA (Instituto do Açúcar e Álcool) na década de 1990. Nesta ocasião o Brasil era o País mais competitivo do mundo na produção de açúcar, com grande vantagem sobre os demais concorrentes. A busca do lucro nas exportações privatizadas de açúcar foram a razão dos investimentos em fabricação de açúcar por parte das destilarias autônomas, produtoras exclusivas de etanol. Isto é o que o prof. Delfim Netto chama de “ instinto animal” do empresário.

Em resumo: as usinas de açúcar existentes na década de 1970 investiram na produção de álcool e as destilarias autônomas de etanol, criadas na década de 1980, investiram na produção de açúcar na década de 1990.

E o Brasil canavieiro se transformou no maior produtor mundial de açúcar e no maior produtor mundial de etanol de cana-de-açúcar. 

Benefícios econômicos da flexibilidade na produção

O exemplo abaixo considera a safra atual 2019/20 e custos médios de produção e comercialização no Centro-Sul do Brasil.

A exportação de açúcar VHP (açúcar bruto que precisa ser refinado para o consumo humano) deve gerar um preço líquido ligeiramente inferior às despesas + depreciação (D+D) de produção e comercialização. Ou seja, os juros de empréstimos e juros sobre o capital próprio não são remunerados.

Já a produção de etanol hidratado, usado no carro flex, deve cobrir o custo D+D e sobrar um ganho de 11%-12% sobre o preço líquido.

Para o negócio de commodities esta diferença de resultados é expressiva. 

E porque o mundo açucareiro não adota esta flexibilidade?

Desde meados dos anos 1980 a Copersucar, demais produtores e Governo Federal vêm informando ao mundo açucareiro sobre as vantagem da flexibilidade açúcar – etanol. E nada de relevante aconteceu até então. Porquê?

O setor de petróleo fica incomodado com o uso do etanol combustível, e isto é uma barreira . E neste momento este incômodo aumentou, tendo em vista que a demanda de petróleo mostra crescimento tímido e a sua oferta é crescente. No período 2008-2018 o PIB mundial cresceu 28% e a demanda de petróleo aumentou 16%.

Além disso, a produção de açúcar de cana é uma lavoura protegida pelos Governos em muitos países . Isto por razões sócio-políticas. Ou seja, preços baixos de açúcar no mercado externo não são sentidos diretamente pelos produtores em mercados protegidos, o que reduz o estímulo para a busca de flexibilidade na produção.

 

Julio Maria M. Borges

Sócio-Diretor da JOB Economia e Planejamento        Conselheiro de Administração.

Site: www.jobeconomia.com.br                    Email: julioborges@jobeconomia.com.br

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Brasil canavieiro: benchmark (ainda não seguido) para o mundo

As usinas de açúcar existentes na década de 1970 investiram na produção de álcool e as destilarias autônomas de etanol, criadas na década de 1980, investiram na produção de açúcar na década de 1990

16 de outubro de 2019 às 18h35

Produzir para ter prejuízo, só por falta de opção.

E é isto que acontece no mundo açucareiro nos últimos três anos, exceto no Brasil. E por que esta diferença? 

A flexibilidade na produção

O Brasil é o único Pais no mundo açucareiro que investiu em flexibilidade relevante de produção de açúcar e etanol, utilizando-se da cana disponível para moagem. Este investimento se deu com recursos do Governo Federal , nas décadas de 1970 e 1980, e com recursos próprios das usinas, principalmente aquelas do Centro-Sul.

Os recursos governamentais das décadas de 1970 e 1980 foram motivados por razões estratégicas, numa época onde cerca de 80% do petróleo consumido no País era importado, comprometendo seriamente nosso Balanço de Pagamentos, e a geopolítica do petróleo recomendava menos dependência de importações.

Os recursos privados foram motivados por ocasião da liberalização do setor do controle do IAA (Instituto do Açúcar e Álcool) na década de 1990. Nesta ocasião o Brasil era o País mais competitivo do mundo na produção de açúcar, com grande vantagem sobre os demais concorrentes. A busca do lucro nas exportações privatizadas de açúcar foram a razão dos investimentos em fabricação de açúcar por parte das destilarias autônomas, produtoras exclusivas de etanol. Isto é o que o prof. Delfim Netto chama de “ instinto animal” do empresário.

Em resumo: as usinas de açúcar existentes na década de 1970 investiram na produção de álcool e as destilarias autônomas de etanol, criadas na década de 1980, investiram na produção de açúcar na década de 1990.

E o Brasil canavieiro se transformou no maior produtor mundial de açúcar e no maior produtor mundial de etanol de cana-de-açúcar. 

Benefícios econômicos da flexibilidade na produção

O exemplo abaixo considera a safra atual 2019/20 e custos médios de produção e comercialização no Centro-Sul do Brasil.

A exportação de açúcar VHP (açúcar bruto que precisa ser refinado para o consumo humano) deve gerar um preço líquido ligeiramente inferior às despesas + depreciação (D+D) de produção e comercialização. Ou seja, os juros de empréstimos e juros sobre o capital próprio não são remunerados.

Já a produção de etanol hidratado, usado no carro flex, deve cobrir o custo D+D e sobrar um ganho de 11%-12% sobre o preço líquido.

Para o negócio de commodities esta diferença de resultados é expressiva. 

E porque o mundo açucareiro não adota esta flexibilidade?

Desde meados dos anos 1980 a Copersucar, demais produtores e Governo Federal vêm informando ao mundo açucareiro sobre as vantagem da flexibilidade açúcar – etanol. E nada de relevante aconteceu até então. Porquê?

O setor de petróleo fica incomodado com o uso do etanol combustível, e isto é uma barreira . E neste momento este incômodo aumentou, tendo em vista que a demanda de petróleo mostra crescimento tímido e a sua oferta é crescente. No período 2008-2018 o PIB mundial cresceu 28% e a demanda de petróleo aumentou 16%.

Além disso, a produção de açúcar de cana é uma lavoura protegida pelos Governos em muitos países . Isto por razões sócio-políticas. Ou seja, preços baixos de açúcar no mercado externo não são sentidos diretamente pelos produtores em mercados protegidos, o que reduz o estímulo para a busca de flexibilidade na produção.

 

Julio Maria M. Borges

Sócio-Diretor da JOB Economia e Planejamento        Conselheiro de Administração.

Site: www.jobeconomia.com.br                    Email: julioborges@jobeconomia.com.br