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Feijão transgênico: não queremos e não precisamos

Antes de tomar um lado na questão dos Feijões geneticamente modificados, há necessidade de esclarecer o contexto em que essa discussão acontece. Longe de ser uma posição contrária à tecnologia transgênica, para a maior parte da cadeia produtiva é uma questão mercadológica. Temos que ter em conta que são assuntos ou discussões diferentes, temas diferentes:…

17 de abril de 2019 às 14h08

Antes de tomar um lado na questão dos Feijões geneticamente modificados, há necessidade de esclarecer o contexto em que essa discussão acontece. Longe de ser uma posição contrária à tecnologia transgênica, para a maior parte da cadeia produtiva é uma questão mercadológica. Temos que ter em conta que são assuntos ou discussões diferentes, temas diferentes: de um lado a tecnologia transgênica e do outro o mercado do feijão. Sendo assim, pondera-se o seguinte:

1. A ciência, a tecnologia e as pesquisas devem ser usadas em favor do ser humano e seu bem-estar. Os transgênicos também.

2. Há uma rejeição aos produtos transgênicos como há rejeição aos produtos produzidos com defensivos agrícolas. No entanto, em ambos os casos, se obedecidas às regras de obtenção (OGM) e segurança (resíduos de defensivos – tempo de carência), não há riscos para a saúde do consumidor. Neste sentido, a justificativa de preferir produtos transgênicos no lugar dos produzidos com defensivos não é robusta e, portanto, não se sustenta.

3. A discussão de que é o consumidor que deve decidir o que comer, feijão RMD ou tradicional, é óbvia. Mas somente estará de acordo se a decisão unilateral de uma empresa não colocar a imagem nacional de todos os produtores de feijão do país em dúvida, no Brasil e no exterior. E virá a pergunta, já que a escolha é liberada (livre-arbítrio): “Será que este feijão-carioca que estou consumindo realmente é o feijão tradicional? Na dúvida, vou consumir outro alimento ou até mesmo comprar feijão de outro país, que não planta transgênico.”

4. Os hábitos de consumo estão mudando, ou migrando, em velocidade acelerada para produtos mais naturais, é o consumo mais “verde”, por meio do vegetarianismo ou veganismo ou outros. Quem não tem parente ou amigo que respeita ou aplica esses conceitos? Crescem aos milhares por mês e já ultrapassam os 30 milhões no Brasil. O feijão pode surfar nesta onda, e mais, até aumentar o consumo, com tipos diferentes do próprio feijão-carioca. Essa é uma grande oportunidade. Mas Feijões OGM vêm na contramão dessas fortes mudanças.

5. Justificar o lançamento para o mercado deste feijão OGM devido aos gastos realizados e à necessidade de apresentar resultados é uma forma leviana ou, pelo menos, um risco alto, colocado ao setor no caso de rejeição ou redução do consumo do feijão.

6. Não é por ser OGM ou uma tecnologia da pesquisa Nacional que devemos adotar e bater palmas. Não podemos ser cegos aos efeitos colaterais, neste caso para o consumidor. Quais são os riscos? Há garantias que não existem riscos? Quais são? Se não mantivermos posição crítica, iremos aceitar OGM em humanos e animais, sem restrições de ética. É tudo ciência, não é? Não somos deuses intocáveis e perfeitos.

7. Os OGMs estão em nosso dia a dia, como o Xico Graziano escreveu recentemente, a maioria de uma forma indireta e, portanto, industrializada e não diretamente no prato consumido todos os dias. Mas, se fosse um sucesso indiscutível, teríamos muitos produtos OGM na mesa. E tem? Para cada item aceito, há 10 que não foram aceitos mundo afora. E por que, cada vez mais, estão reduzindo as pesquisas de obtenção de OGMs para outras menos “polêmicas”? Por que custa tão caro sua obtenção, principalmente nas questões de segurança (ambiente e saúde pública)? Não seria devido à rejeição do consumidor e dos riscos embutidos? Quando há fumaça, paira a dúvida se há fogo.

8. Os números de participação da EMBRAPA em feijão são discutíveis em todos os sentidos: porcentagem de mercado, recursos aplicados/resultados, visão de futuro, visão e ação para oportunidades na cadeia produtiva, transferência de tecnologias.

9. A EMBRAPA tem o direito de lançar está cultivar, mas será cobrada pela responsabilidade de responder até civilmente por perdas no mercado. Até mesmo responder por promover possíveis variantes do vírus e de todas as consequências não corretamente avaliadas pela própria EMBRAPA. O risco vale a pena?

10. Esta cultivar não nos preocupa do ponto de vista competitivo, pois sabemos que não será amplamente semeada, particularmente por ela não atender às necessidades agronômicas quando foi aprovada na CNTBIO. Por isso nunca foi lançada, não evoluiu e, agora, de uma hora para outra, querem lançar como inovação, o que põe em dúvidas as verdadeiras motivações por trás da insistência desta diretoria da EMBRAPA em lançá-la.

11. Preocupa-nos, para o varejo, o feijão com a tarja OGM, que provavelmente reduzirá o consumo deste importante alimento no Brasil e prejudicará os esforços que estamos fazendo para aumentar o consumo e também todo o esforço de abrir, no exterior, o mercado para nossos Pulses.

Tendo em vista que aparentemente, neste momento, a EMBRAPA abriu mão do bom-senso, talvez até por estar sendo presidida por um pesquisador de área de algodão, cabe à cadeia produtiva solicitar que o Ministério da Agricultura seja sensibilizado e evite este dissabor que o setor não merece.

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Feijão transgênico: não queremos e não precisamos

Antes de tomar um lado na questão dos Feijões geneticamente modificados, há necessidade de esclarecer o contexto em que essa discussão acontece. Longe de ser uma posição contrária à tecnologia transgênica, para a maior parte da cadeia produtiva é uma questão mercadológica. Temos que ter em conta que são assuntos ou discussões diferentes, temas diferentes:…

17 de abril de 2019 às 14h08

Antes de tomar um lado na questão dos Feijões geneticamente modificados, há necessidade de esclarecer o contexto em que essa discussão acontece. Longe de ser uma posição contrária à tecnologia transgênica, para a maior parte da cadeia produtiva é uma questão mercadológica. Temos que ter em conta que são assuntos ou discussões diferentes, temas diferentes: de um lado a tecnologia transgênica e do outro o mercado do feijão. Sendo assim, pondera-se o seguinte:

1. A ciência, a tecnologia e as pesquisas devem ser usadas em favor do ser humano e seu bem-estar. Os transgênicos também.

2. Há uma rejeição aos produtos transgênicos como há rejeição aos produtos produzidos com defensivos agrícolas. No entanto, em ambos os casos, se obedecidas às regras de obtenção (OGM) e segurança (resíduos de defensivos – tempo de carência), não há riscos para a saúde do consumidor. Neste sentido, a justificativa de preferir produtos transgênicos no lugar dos produzidos com defensivos não é robusta e, portanto, não se sustenta.

3. A discussão de que é o consumidor que deve decidir o que comer, feijão RMD ou tradicional, é óbvia. Mas somente estará de acordo se a decisão unilateral de uma empresa não colocar a imagem nacional de todos os produtores de feijão do país em dúvida, no Brasil e no exterior. E virá a pergunta, já que a escolha é liberada (livre-arbítrio): “Será que este feijão-carioca que estou consumindo realmente é o feijão tradicional? Na dúvida, vou consumir outro alimento ou até mesmo comprar feijão de outro país, que não planta transgênico.”

4. Os hábitos de consumo estão mudando, ou migrando, em velocidade acelerada para produtos mais naturais, é o consumo mais “verde”, por meio do vegetarianismo ou veganismo ou outros. Quem não tem parente ou amigo que respeita ou aplica esses conceitos? Crescem aos milhares por mês e já ultrapassam os 30 milhões no Brasil. O feijão pode surfar nesta onda, e mais, até aumentar o consumo, com tipos diferentes do próprio feijão-carioca. Essa é uma grande oportunidade. Mas Feijões OGM vêm na contramão dessas fortes mudanças.

5. Justificar o lançamento para o mercado deste feijão OGM devido aos gastos realizados e à necessidade de apresentar resultados é uma forma leviana ou, pelo menos, um risco alto, colocado ao setor no caso de rejeição ou redução do consumo do feijão.

6. Não é por ser OGM ou uma tecnologia da pesquisa Nacional que devemos adotar e bater palmas. Não podemos ser cegos aos efeitos colaterais, neste caso para o consumidor. Quais são os riscos? Há garantias que não existem riscos? Quais são? Se não mantivermos posição crítica, iremos aceitar OGM em humanos e animais, sem restrições de ética. É tudo ciência, não é? Não somos deuses intocáveis e perfeitos.

7. Os OGMs estão em nosso dia a dia, como o Xico Graziano escreveu recentemente, a maioria de uma forma indireta e, portanto, industrializada e não diretamente no prato consumido todos os dias. Mas, se fosse um sucesso indiscutível, teríamos muitos produtos OGM na mesa. E tem? Para cada item aceito, há 10 que não foram aceitos mundo afora. E por que, cada vez mais, estão reduzindo as pesquisas de obtenção de OGMs para outras menos “polêmicas”? Por que custa tão caro sua obtenção, principalmente nas questões de segurança (ambiente e saúde pública)? Não seria devido à rejeição do consumidor e dos riscos embutidos? Quando há fumaça, paira a dúvida se há fogo.

8. Os números de participação da EMBRAPA em feijão são discutíveis em todos os sentidos: porcentagem de mercado, recursos aplicados/resultados, visão de futuro, visão e ação para oportunidades na cadeia produtiva, transferência de tecnologias.

9. A EMBRAPA tem o direito de lançar está cultivar, mas será cobrada pela responsabilidade de responder até civilmente por perdas no mercado. Até mesmo responder por promover possíveis variantes do vírus e de todas as consequências não corretamente avaliadas pela própria EMBRAPA. O risco vale a pena?

10. Esta cultivar não nos preocupa do ponto de vista competitivo, pois sabemos que não será amplamente semeada, particularmente por ela não atender às necessidades agronômicas quando foi aprovada na CNTBIO. Por isso nunca foi lançada, não evoluiu e, agora, de uma hora para outra, querem lançar como inovação, o que põe em dúvidas as verdadeiras motivações por trás da insistência desta diretoria da EMBRAPA em lançá-la.

11. Preocupa-nos, para o varejo, o feijão com a tarja OGM, que provavelmente reduzirá o consumo deste importante alimento no Brasil e prejudicará os esforços que estamos fazendo para aumentar o consumo e também todo o esforço de abrir, no exterior, o mercado para nossos Pulses.

Tendo em vista que aparentemente, neste momento, a EMBRAPA abriu mão do bom-senso, talvez até por estar sendo presidida por um pesquisador de área de algodão, cabe à cadeia produtiva solicitar que o Ministério da Agricultura seja sensibilizado e evite este dissabor que o setor não merece.

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