A agropecuária é a salvadora da pátria?

Felippe Cauê Serigati possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas (2005), mestrado em Economia de Empresas pela Fundação Getulio Vargas – SP (2008) e doutorado em Economia de Empresas pela Fundação Getulio Vargas – SP (2013). Atualmente é professor da Fundação Getulio Vargas – SP e pesquisador da Fundação Getulio Vargas – SP. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Economia Agrária.

 

Scot Consultoria: Professor, os atuais números da economia vêm sendo um pouco melhores, é possível dizer que o país saiu da recessão ou ainda estamos estagnados? Conseguiremos manter um PIB positivo no segundo trimestre?

Felippe Cauê Serigati: Com exceção dos números sobre o mercado de trabalho, de fato, os últimos dados divulgados pelo IBGE têm sido melhores do que aqueles anunciados em 2016. Embora em termos técnicos, a recessão já tenha acabado (recessão técnica é a sequência de dois ou mais trimestres consecutivos de contração do PIB), na realidade, é possível dizer que a recessão ainda prossegue. Os investimentos e o consumo das famílias ainda não reagiram, a taxa de desemprego ainda está muito alta, o mercado de crédito continua desaquecido e ainda há muita ociosidade na economia. Enfim, a economia ainda não voltou a reagir e, infelizmente, não está descartada uma leve contração do PIB ao longo do segundo trimestre.

Scot Consultoria: A instabilidade política no País ainda é grande. Qual seria o tamanho do prejuízo para a economia de uma nova troca na Presidência da República, um ano após o impeachment?

Felippe Cauê Serigati: Creio que o prejuízo já esteja dado. Havendo ou não troca no comando do Palácio do Planalto, a agenda de reformas já foi para a geladeira. Por um lado, pessoalmente, mesmo se mantendo no poder, não enxergo o Governo Temer forte o suficiente para passar as reformas com algum conteúdo relevante (talvez até passe algo na Reforma Trabalhista, talvez…). O fato é que o Governo Temer perdeu fôlego. Se conseguir passar alguma reforma, provavelmente, terá que passá-la de forma muito desidratada.

Por outro, não acho que o cenário melhore caso haja uma troca na Presidência da República. Os nomes que circularam na imprensa até o momento não me parecem suficientemente fortes ou convictos para retomarem a agenda de reformas. Particularmente, classifico os nomes que já foram mencionados na imprensa em três grandes grupos:

(i) fortes e com articulação com o Congresso, porém feridos por alguma investigação: a força dos nomes com essas características não deve durar muito. Ou seja, não conseguirão tocar a agenda de reformas;

(ii) sem grandes envolvimentos (até o momento!), mas sem poder de articulação ou legitimidade junto à sociedade: podem até levar o nosso barco até o final de 2018, mas não devem fazer grande coisa;

(iii) aventureiros e oportunistas: bom, nesse caso, creio que meu cenário base seria “ladeira a baixo”.

Scot Consultoria: O senhor acredita que a reforma trabalhista, por estimular a produção, seria a indutora da economia para os próximos anos?

Felippe Cauê Serigati: Não diria que seja um indutor, mas um facilitador. A reforma trabalhista não trará o crescimento de volta, mas permitirá que, quando vier, ele seja mais intenso e sustentável. Em outras palavras, em minha opinião, a reforma trabalhista, ao reduzir os custos e os riscos de uma contratação, permitirá incorporar uma fração maior da força de trabalho ao mercado quando a economia voltar a crescer.

Scot Consultoria: Após as alterações feitas na proposta da reforma da previdência, o Senhor acha que essa atualização será suficiente para sustentar o setor previdenciário ou teremos que voltar à essa pauta em breve?

Felippe Cauê Serigati: Certamente, voltaremos a discutir reforma da previdência em, no máximo, cinco ou sete anos. Reformar a previdência não será um ato, será um processo… e longo. A sociedade brasileira está envelhecendo rapidamente (de forma mais acelerada que diversas outras economias – exceção da China) e o nosso sistema é muito desequilibrado.

Nenhuns dos grupos que são favorecidos deram sinais de que abrirão mão dos seus benefícios. Com isso, a conta não fecha e estamos comprometendo cada vez mais os recursos pagos pelos contribuintes apenas com essa despesa (na realidade, estamos até nos endividando para pagar essa conta…) em detrimento das demais demandas da sociedade.

Scot Consultoria: Por que o agronegócio vem obtendo desempenhos superiores aos da economia brasileira, em média, há vários anos?

Felippe Cauê Serigati: Por uma combinação de fatores: do lado da demanda, o nosso agronegócio encontrou um cenário bastante favorável (por exemplo, com a expansão da renda e a urbanização crescente de diversas economias); do lado da oferta, o setor fez a sua lição de casa, buscando de forma obsessiva maior produtividade. Infelizmente, diversos outros setores da nossa economia não conseguiram fazer essa lição ou sequer adotaram como estratégia a busca por maior produtividade.

Scot Consultoria: Felippe, somos um país que produz principalmente produtos primários (soja, carne, petróleo..) isso é bom para o Brasil? Porque a indústria tem tanta dificuldade para evoluir?

Felippe Cauê Serigati: Com certeza é bom. Por que seria ruim ser eficiente e competitivo na produção de produtos primários? O problema é conseguir ser competitivo apenas em produtos mais básicos (soja, açúcar, carnes, celulose, minério de ferro, petróleo bruto, etc.). Todavia, discordo da tese de que a indústria vai mal porque os setores primários vão bem. Não vejo porque ser competitivo em produtos primários nos torna menos competitivos em produtos mais elaborados. Em outras palavras, de que forma o sucesso do agronegócio ou da Vale compromete, por exemplo, a expansão da indústria automotiva ou de linha branca? Pessoalmente, não vejo contradição entre ter uma indústria forte e ter setores primários competitivos. Alguns argumentarão que a taxa de câmbio pode ser a grande vilã. Porém, o agronegócio caminhou bem com câmbio apreciado ou depreciado, e a indústria não conseguiu evoluir bem com câmbio apreciado ou depreciado.

Por que a indústria brasileira tem encontrado tanta dificuldade pra evoluir? Na minha opinião, por um grande motivo: Custo Brasil. Produzir no Brasil é muito caro. Comparado com outras economias (inclusive algumas emergentes) somos caros pela produtividade que conseguimos entregar. Por trás desse elevado Custo Brasil há diversos fatores (que todos já conhecem): mão de obra cara e pouco produtiva, infraestrutura precária, burocracia sufocante, carga tributária elevada, sistema tributário confuso, enorme insegurança jurídica, crédito caro (principalmente, foras das linhas subsidiadas pelo governo), etc.

Essa situação fica ainda mais problemática quando se tem concorrentes bastante agressivos e competitivos, como os asiáticos. Estamos encontrando grandes dificuldades para competir com eles. É verdade que não somos apenas nós; basta lembrar da agenda protecionista que elegeu o Donald Trump nos Estados Unidos. O nosso caso ficou ainda pior por um longo período de câmbio mais apreciado que permitiu que diversos bens importados chegassem à nossa economia de forma mais barata.

Percebam que esse Custo Brasil afeta toda a indústria brasileira, inclusive a agroindústria. De acordo com os números do CEPEA sobre o PIB do agronegócio, entre 2000 e 2016, enquanto a as atividades agropecuárias cresceram em média 4.4% a.a., a agroindústria cresceu apenas 1.6% a.a. Assim como as demais indústrias, a agroindústria também não conseguiu evoluir. Em outras palavras, exportamos commodities, mas temos muito dificuldade de exportar alimentos. O custo de produzir qualquer bem que demande um número maior de etapas ao longo do seu processo produtivo é muito grande. Resultado: produzimos a matéria-prima mais básica e, imediatamente, encaminhamos para o porto, em vez de manufaturá-la. Veja que tivemos um desempenho favorável nas atividades agropecuárias e na indústria extrativa (minério e petróleo). O caso da Embraer tem sido uma exceção na nossa economia.

Scot Consultoria: O agronegócio tem um importante peso no Produto Interno Bruto (PIB). A  tendência é que a participação aumente no médio prazo e o setor continue sendo a âncora da economia brasileira?

Felippe Cauê Serigati: Não estou 100% confortável com a expressão “ser a âncora da economia brasileira”. Certamente, o agronegócio tem dado grandes contribuições para a economia nacional. Entre elas, destaco (i) a dinamização da economia pelo interior do país (isto é, fora das principais regiões metropolitanas), (ii) o auxílio na desaceleração da inflação, (iii) a atração de divisas via exportações e, principalmente, (iv) o exemplo de que o segredo para o crescimento de médio e longo prazo é a busca incessante por maior produtividade. Porém, não considero o nosso setor a âncora da economia brasileira. Em outras palavras, não é por meio do nosso setor que o Brasil sairá da crise. Apesar dos grandes avanços promovidos pelo universo agro ao longo das últimas décadas, não parece que as atividades agropecuárias (ou até mesmo o agronegócio como um todo) tenham força para, sozinhas, tirar a economia do buraco.

Os números divulgados pelo IBGE no início de junho voltaram a deixar esse ponto claro. Comparando com o 1º trimestre de 2016, a economia brasileira contraiu 0,4% ao longo do 1º trimestre de 2017. Por trás dessa contração, houve uma fortíssima expansão das atividades agropecuárias de 15,2%, e a contração de 1,1% e de 1,7% da indústria e dos serviços, respectivamente. Ou seja, mesmo as atividades agropecuárias crescendo espetaculares 15,2%, não foi suficiente para compensar a contração moderada da indústria de 1,1% ou para aquecer o setor de serviços.

Se utilizarmos as comparações da variação trimestral desses números, a conclusão é semelhante. A economia brasileira cresceu 1,0% entre o 4º trimestre de 2016 e o 1º trimestre de 2017 (marcando o fim da recessão técnica). Por trás dessa expansão, temos um fortíssimo crescimento das atividades agropecuárias de 13,4%, a expansão de 0,9% da indústria e a estagnação do setor de serviços (0,0 %). Ou seja, apesar da fortíssima expansão das atividades agropecuárias 13,4%, o PIB cresceu “apenas” 1.0%. Oras, se as atividades agropecuárias fossem o setor que puxasse a economia brasileira, esse crescimento do PIB não teria que ser maior? Como uma locomotiva que cresce 13.4% gera uma expansão de apenas 1.0% no PIB?

Por fim, de acordo com a análise do pessoal do CODACE (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos) aqui da FGV, enquanto, de um lado, a forte expansão de 13.4% das atividades agropecuárias geraram um crescimento de apenas 0.8% no PIB, o pequeno avanço de 0.9% da indústria (notadamente, na indústria extrativista de minérios e petróleo bruto) gerou um crescimento de 0.2% no PIB (uma vez que o setor de serviços ficou estagnado). Em outras palavras, mantidas as mesmas proporções, é como se o efeito multiplicador dessas indústrias fosse quase quatro vezes maior do que das atividades agropecuárias.

Enfim, não fico 100% confortável com o argumento de que o agronegócio é a tábua de salvação da economia brasileira. Na realidade, não sei qual é a vantagem de colocarmos essa responsabilidade nas nossas costas.