‘Parei de plantar para não perder tudo’, diz ex-agricultor de MT

Em Gaúcha do Norte, leste do estado, crise atingiu o campo e muitos tiveram que procurar outras atividades para sobreviver

13 de agosto de 2019 às 16h05

É um efeito cascata: a falta de infraestrutura e logística aumenta custos, descapitaliza agricultores e chega a inviabilizar a permanência de muita gente na atividade. Em Gaúcha do Norte, leste de Mato Grosso, produtores se viram forçados a abandonar o campo. Sem renda, com dívidas herdadas de momentos ruins da agricultura e, consequentemente, sem acesso a financiamentos bancários, a busca por outras alternativas de sobrevivência foi o caminho que restou.

Norberto Zeidler abandonou as máquinas agrícolas para trabalhar no comércio. Foto: Pedro Silvestre

Atrás do balcão da loja de roupas, Norberto Zeidler lembra todos os dias do tempo em que a fazenda era o seu esteio. Há quatro anos, precisou trocar a rotina das máquinas pesadas e o trabalho no campo para assumir uma nova atividade: o comércio. Mudança forçada, segundo o ex-produtor. Consequência de anos seguidos de dificuldades e frustrações na agricultura. Em entrevista ao repórter Pedro Silvestre, ele comentou: “a nossa dificuldade aqui é muito grande. Nós não temos estradas e as coisas chegam mais caras. O custo do combustível é muito alto. Eu parei com a agricultura porque senão eu iria perder tudo o que tinha.Dói bastante porque a gente gosta de produzir… mas infelizmente ficamos de mãos amarradas”, desabafa.

Segundo o Sindicato Rural de Gaúcha do Norte, nos últimos cinco anos, mais de 30 agricultores abandonaram a atividade no município. “É uma triste realidade! A gente tem vistos produtores vendendo, indo para outras regiões, parando de plantar, mudando de atividade – principalmente quem era arrendatário. Muitos deixaram de ser patrão para ser empregado”, lamenta Neuza Wessner, vice-presidente do Sindicato.

Para ela, a estiagem foi um fator que potencializou o problema. “A gente teve um impacto muito grande na safra 2015/16, causado por uma estiagem muito grande na região. Nosso município entrou em estado de emergência, mas isso não mudou em nada para a gente. As dívidas foram prorrogadas, mas como os juros das prorrogações eram maiores que os custeios, no ano seguinte o problema só aumentou, porque você tem os custos daquela safra mais o da safra anterior. Muita gente começou a não conseguir honrar os compromissos, vários produtores ‘perderam’ o CPF – o que piorou ainda mais o problema, já que eles perderam acesso a financiamentos. Isso acaba se tornando uma bola de neve em que muitos não têm conseguido mais sair, tendo que largar a atividade por conta dessa dificuldade”, explica.

O agricultor Romeu Wolkveis é um dos que se esforça para permanecer no campo. Ele diz que de alguns anos para cá está cada vez mais pobre. Com uma dívida milionária acumulada nos últimos anos, já não tem como pegar dinheiro no banco e a soja que ele colheu este ano não foi suficiente para cobrir as despesas. Sem recursos para custear a próxima safra, ainda não sabe se vai cultivar os 3.100 hectares que seriam destinados à oleaginosa. “Estamos nocauteados! Devo em torno de R$ 7 milhões a R$ 8 milhões, só que eu tenho capital (imóvel) de R$ 25 milhões a R$ 30 milhões. Mesmo assim eu não tenho crédito”, explica o agricultor que defende prazos maiores para prorrogações de dívidas da atividade. “Acredito que tinha que ter para nós uma prorrogação pelo menos para mais 8, 9, 10 anos para pagar as contas vencidas. Se não, não consegue mais voltar para a atividade. Essas ‘tradings’ vão tomar tudo o que é nosso”, alerta.

‘Parei de plantar para não perder tudo’, diz ex-agricultor de MT

Em Gaúcha do Norte, leste do estado, crise atingiu o campo e muitos tiveram que procurar outras atividades para sobreviver

13 de agosto de 2019 às 16h05

É um efeito cascata: a falta de infraestrutura e logística aumenta custos, descapitaliza agricultores e chega a inviabilizar a permanência de muita gente na atividade. Em Gaúcha do Norte, leste de Mato Grosso, produtores se viram forçados a abandonar o campo. Sem renda, com dívidas herdadas de momentos ruins da agricultura e, consequentemente, sem acesso a financiamentos bancários, a busca por outras alternativas de sobrevivência foi o caminho que restou.

Norberto Zeidler abandonou as máquinas agrícolas para trabalhar no comércio. Foto: Pedro Silvestre

Atrás do balcão da loja de roupas, Norberto Zeidler lembra todos os dias do tempo em que a fazenda era o seu esteio. Há quatro anos, precisou trocar a rotina das máquinas pesadas e o trabalho no campo para assumir uma nova atividade: o comércio. Mudança forçada, segundo o ex-produtor. Consequência de anos seguidos de dificuldades e frustrações na agricultura. Em entrevista ao repórter Pedro Silvestre, ele comentou: “a nossa dificuldade aqui é muito grande. Nós não temos estradas e as coisas chegam mais caras. O custo do combustível é muito alto. Eu parei com a agricultura porque senão eu iria perder tudo o que tinha.Dói bastante porque a gente gosta de produzir… mas infelizmente ficamos de mãos amarradas”, desabafa.

Segundo o Sindicato Rural de Gaúcha do Norte, nos últimos cinco anos, mais de 30 agricultores abandonaram a atividade no município. “É uma triste realidade! A gente tem vistos produtores vendendo, indo para outras regiões, parando de plantar, mudando de atividade – principalmente quem era arrendatário. Muitos deixaram de ser patrão para ser empregado”, lamenta Neuza Wessner, vice-presidente do Sindicato.

Para ela, a estiagem foi um fator que potencializou o problema. “A gente teve um impacto muito grande na safra 2015/16, causado por uma estiagem muito grande na região. Nosso município entrou em estado de emergência, mas isso não mudou em nada para a gente. As dívidas foram prorrogadas, mas como os juros das prorrogações eram maiores que os custeios, no ano seguinte o problema só aumentou, porque você tem os custos daquela safra mais o da safra anterior. Muita gente começou a não conseguir honrar os compromissos, vários produtores ‘perderam’ o CPF – o que piorou ainda mais o problema, já que eles perderam acesso a financiamentos. Isso acaba se tornando uma bola de neve em que muitos não têm conseguido mais sair, tendo que largar a atividade por conta dessa dificuldade”, explica.

O agricultor Romeu Wolkveis é um dos que se esforça para permanecer no campo. Ele diz que de alguns anos para cá está cada vez mais pobre. Com uma dívida milionária acumulada nos últimos anos, já não tem como pegar dinheiro no banco e a soja que ele colheu este ano não foi suficiente para cobrir as despesas. Sem recursos para custear a próxima safra, ainda não sabe se vai cultivar os 3.100 hectares que seriam destinados à oleaginosa. “Estamos nocauteados! Devo em torno de R$ 7 milhões a R$ 8 milhões, só que eu tenho capital (imóvel) de R$ 25 milhões a R$ 30 milhões. Mesmo assim eu não tenho crédito”, explica o agricultor que defende prazos maiores para prorrogações de dívidas da atividade. “Acredito que tinha que ter para nós uma prorrogação pelo menos para mais 8, 9, 10 anos para pagar as contas vencidas. Se não, não consegue mais voltar para a atividade. Essas ‘tradings’ vão tomar tudo o que é nosso”, alerta.