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Índios Paresi iniciam cultivo da nova safra de soja e esperam a assinatura de um TAC

Após suspensão do embargo do Ibama, as plantadeiras começaram os trabalhos na área indígena, mas regularização da atividade ainda depende de um termo de ajustamento de conduta

08 de outubro de 2019 às 18h04
Com fotos e reportagem de Pedro Silvestre

Sinal verde do Ibama e plantadeiras em ação nas aldeias. Depois de muita negociação, espera e algumas restrições, o cultivo mecanizado de grãos em grande escala voltou a ser liberado nas terras dos Paresi, Manoki e Nambikwara. A prática havia sido embargada pelo órgão no ano passado, após fiscalizações terem apontado irregularidades – como o plantio de cultivares transgênicas, que é proibido em áreas indígenas.

“É importante frisar aqui para toda a sociedade que esse nosso projeto foi desembargado para nós, indígenas, trabalharmos sem terceiros e sem envolvimento de ninguém. Somos nós mesmos que estamos fazendo a gestão, nós mesmos que iremos buscar essa viabilidade junto ao Ministério Público, junto à Funai, junto à Casa Civil e todos os Ministérios para que a gente possa sair da informalidade”, explica Ronaldo Zokezomaike, presidente da Coopihanama, a cooperativa formada pelos indígenas.

Na mesma linha, Arnaldo Zunizakae, que é o coordenador de projetos da cooperativa, desabafa: “a gente sabe o que quer, estamos fazendo tudo de maneira responsável, ou seja, no sentido coletivo. E o fato de estarmos buscando o licenciamento das nossas áreas demonstra que nós queremos fazer a coisa certa, a gente só veio plantando nessa irregularidade porque vai fazer sete anos que estamos com um pedido de licenciamento das nossa áreas e o órgão responsável até então não tinha dado nenhum encaminhamento nesse sentido de regularizar essa atividade”, conclui.

Da área total de 1,5 milhão de hectares da reserva indígena, apenas 1,7% são utilizados na agricultura. Todo o restante é preservado segundo o presidente da Coopihanama. “Os nossos projetos estão em locais estratégicos, longes das nascentes, longes dos pontos de frutas e caça… então é muito importante a sociedade saber que é um projeto sério, bem planejado, respeitando é claro a questão ambiental que é o nosso maior patrimônio”, afirma.


Como o cultivo de transgênicos na aldeia permanece proibido, o plantio é feito apenas com cultivares convencionais. A produtividade média nas últimas safras ficou acima de 60 sacas por hectare. Apesar de ser o carro-chefe por lá, a oleaginosa vai perder mais da metade do espaço para culturas de segunda safra. É o que explica o agrônomo da aldeia, Lúzio Ozanazokaese. “O custo é elevado. Por ser uma soja convencional exige muito manejo. Então, estamos reduzindo entre 70% e 80% a área da soja. Nesse espaço vamos diversificar com culturas como feijão e milho, para conseguir ‘fazer o giro’”, comenta. Com o corte, a área total destinada à soja na terra dos Parese nesta safra deve ficar em 3.500 hectares.


A agricultura foi introduzida na reserva Paresi há quase duas décadas e transformou a situação que antes, segundo os indígenas, era de miséria nas aldeias. A atividade estimulou a criação da cooperativa – que hoje emprega apenas indígenas – e também aumentou a renda e trouxe muitos benefícios para a comunidade. “Acabou a discriminação, acabou aquela imagem de que o índio é vagabundo e preguiçoso, melhorou a qualidade de vida, gerando trabalho e consequentemente hoje a gente traz renda para dentro da família, alimentação de qualidade, moradia de qualidade, estruturação e melhoramento nas aldeias”, enaltece Arnaldo Zunizakae.


Após a suspensão do embargo do Ibama a expectativa agora é a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta, um “acordo” entre a comunidade indígena, Funai, Ibama e Ministério Público Federal com as regras que devem ser seguidas para que a atividade possa ser regularizada. Entre elas, a permanência da proibição do cultivo de transgênicos, além do veto ao arrendamento e ao estabelecimento de “parcerias” com não-índios.

“O importante é dizer que esse TAC ele dará ‘origem’ ao nosso produto e isso nos dá o mercado aberto para qualquer tipo de comercialização, seja importação e exportação. Ele nos dá toda essa garantia, ou seja, não dependeremos de mais ninguém, só da gente mesmo. A porteira estará aberta para nós”, comemora o presidente da Coopihanama.

 

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Índios Paresi iniciam cultivo da nova safra de soja e esperam a assinatura de um TAC

Após suspensão do embargo do Ibama, as plantadeiras começaram os trabalhos na área indígena, mas regularização da atividade ainda depende de um termo de ajustamento de conduta

08 de outubro de 2019 às 18h04
Com fotos e reportagem de Pedro Silvestre

Sinal verde do Ibama e plantadeiras em ação nas aldeias. Depois de muita negociação, espera e algumas restrições, o cultivo mecanizado de grãos em grande escala voltou a ser liberado nas terras dos Paresi, Manoki e Nambikwara. A prática havia sido embargada pelo órgão no ano passado, após fiscalizações terem apontado irregularidades – como o plantio de cultivares transgênicas, que é proibido em áreas indígenas.

“É importante frisar aqui para toda a sociedade que esse nosso projeto foi desembargado para nós, indígenas, trabalharmos sem terceiros e sem envolvimento de ninguém. Somos nós mesmos que estamos fazendo a gestão, nós mesmos que iremos buscar essa viabilidade junto ao Ministério Público, junto à Funai, junto à Casa Civil e todos os Ministérios para que a gente possa sair da informalidade”, explica Ronaldo Zokezomaike, presidente da Coopihanama, a cooperativa formada pelos indígenas.

Na mesma linha, Arnaldo Zunizakae, que é o coordenador de projetos da cooperativa, desabafa: “a gente sabe o que quer, estamos fazendo tudo de maneira responsável, ou seja, no sentido coletivo. E o fato de estarmos buscando o licenciamento das nossas áreas demonstra que nós queremos fazer a coisa certa, a gente só veio plantando nessa irregularidade porque vai fazer sete anos que estamos com um pedido de licenciamento das nossa áreas e o órgão responsável até então não tinha dado nenhum encaminhamento nesse sentido de regularizar essa atividade”, conclui.

Da área total de 1,5 milhão de hectares da reserva indígena, apenas 1,7% são utilizados na agricultura. Todo o restante é preservado segundo o presidente da Coopihanama. “Os nossos projetos estão em locais estratégicos, longes das nascentes, longes dos pontos de frutas e caça… então é muito importante a sociedade saber que é um projeto sério, bem planejado, respeitando é claro a questão ambiental que é o nosso maior patrimônio”, afirma.


Como o cultivo de transgênicos na aldeia permanece proibido, o plantio é feito apenas com cultivares convencionais. A produtividade média nas últimas safras ficou acima de 60 sacas por hectare. Apesar de ser o carro-chefe por lá, a oleaginosa vai perder mais da metade do espaço para culturas de segunda safra. É o que explica o agrônomo da aldeia, Lúzio Ozanazokaese. “O custo é elevado. Por ser uma soja convencional exige muito manejo. Então, estamos reduzindo entre 70% e 80% a área da soja. Nesse espaço vamos diversificar com culturas como feijão e milho, para conseguir ‘fazer o giro’”, comenta. Com o corte, a área total destinada à soja na terra dos Parese nesta safra deve ficar em 3.500 hectares.


A agricultura foi introduzida na reserva Paresi há quase duas décadas e transformou a situação que antes, segundo os indígenas, era de miséria nas aldeias. A atividade estimulou a criação da cooperativa – que hoje emprega apenas indígenas – e também aumentou a renda e trouxe muitos benefícios para a comunidade. “Acabou a discriminação, acabou aquela imagem de que o índio é vagabundo e preguiçoso, melhorou a qualidade de vida, gerando trabalho e consequentemente hoje a gente traz renda para dentro da família, alimentação de qualidade, moradia de qualidade, estruturação e melhoramento nas aldeias”, enaltece Arnaldo Zunizakae.


Após a suspensão do embargo do Ibama a expectativa agora é a assinatura de um Termo de Ajustamento de Conduta, um “acordo” entre a comunidade indígena, Funai, Ibama e Ministério Público Federal com as regras que devem ser seguidas para que a atividade possa ser regularizada. Entre elas, a permanência da proibição do cultivo de transgênicos, além do veto ao arrendamento e ao estabelecimento de “parcerias” com não-índios.

“O importante é dizer que esse TAC ele dará ‘origem’ ao nosso produto e isso nos dá o mercado aberto para qualquer tipo de comercialização, seja importação e exportação. Ele nos dá toda essa garantia, ou seja, não dependeremos de mais ninguém, só da gente mesmo. A porteira estará aberta para nós”, comemora o presidente da Coopihanama.