Veja o que esperar da safra de soja 2018/2019

Alexandre José Cattelan, pesquisador e chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Soja

Diferentes institutos de pesquisa têm previsto um aumento em torno de 3% na área plantada com soja na próxima safra, totalizando uma área ligeiramente superior a 36 milhões de hectares. Esse é o resultado da crescente demanda mundial pelo grão, em especial pela China, e dos preços atrativos para a oleaginosa. A produção estimada para o país é de 121 milhões de toneladas, o que, se confirmado, representará um novo recorde, superando as 118 milhões de toneladas da última safra.

Soja em plantio direto. Foto: RRRufino

No entanto, vários fatores devem ser considerados pelo produtor antes de decidir-se pela expansão da sua lavoura. O primeiro, é que as projeções para a próxima safra americana também são positivas, girando em cerca de 124 milhões de toneladas. Não será ainda desta vez que o Brasil vai ultrapassar os EUA na produção da oleaginosa! Essa produção poderá pressionar para baixo as cotações da soja na Bolsa de Chicago.

É importante ter em mente que os preços em dólar da commodity já estão deprimidos. O que está garantindo um bom preço para a soja no Brasil é a taxa de câmbio. Em função das incertezas relativas às próximas eleições presidenciais, a taxa de conversão do Real mantém-se alta. Porém, dependendo do candidato que for eleito presidente, essa taxa pode despencar.

Foi exatamente isso que ocorreu em 2002/2003, com a eleição e posse do Presidente Lula. Naquele ano, o dólar oficial iniciou o ano com a cotação de R$ 2,30 para compra e chegou a R$ 3,95 em outubro. Logo após a posse do novo presidente, houve queda substancial, chegando a R$ 2,89 em abril de 2003.

Se a história se repetir, o produtor vai instalar a lavoura com aquisição dos insumos a um dólar alto e vai colher a soja com um dólar bem mais baixo! É verdade que há outros fatores pressionando a cotação do dólar além das eleições brasileiras. Entre eles está a taxa americana de juros, que está atraindo os investidores para os EUA. Mas é difícil nesse momento isolar e ponderar esses fatores.

Outro ponto que dever ser considerado é a guerra comercial entre EUA e China. Por enquanto, essa disputa tem favorecido o Brasil. Mas, dependendo dos acordos futuros entre os dois gigantes, o Brasil pode ficar em desvantagem. O tabelamento do frete, fruto da greve dos caminhoneiros, onera tanto a logística para aquisição dos insumos, como o escoamento da safra. Também, não está claro se o tabelamento será mantido pelo próximo governo. Mas é outro fator que deve ser levado em consideração.

Em relação ao clima, as previsões são de que existe grande probabilidade de ocorrência do fenômeno El Niño no final de 2018 e início de 2019. Com isso, podem ocorrer períodos de estiagem no Centro-Norte do país e maior precipitação pluviométrica no Sul. Dependendo da intensidade do fenômeno, a produtividade das lavouras pode ser afetada, assim como a ocorrência de problemas fitossanitários e dificuldade na hora da colheita.

Resumindo, são muitas as incertezas que o produtor enfrenta para decidir sobre sua próxima lavoura de soja. A única garantia será a de implantação da safra com insumos mais caros, consequentemente elevados custos de produção, em função da cotação do dólar nos últimos tempos. Para o momento pareceria aconselhável vender, se não toda a safra, boa parte dela, aproveitando as vantagens apontadas, embora toda a cautela seja recomendada. Como diz o ditado popular “o seguro morreu de velho”!

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