China, grande consumidora e produtora de alimentos do mundo

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

Já comentamos que a China é gigante em vários aspectos: tamanho do território, da população e do Produto Interno Bruto (PIB). No entanto, o que pode ser novidade para muitos cidadãos, é saber que ela também é grande na produção de alimentos. A bem da verdade, não é apenas grande, é líder na produção agrícola mundial.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a China produziu na safra 2016/17, 546 milhões de toneladas (Mt) de cereais (219 Mt de milho, 205 Mt de arroz e 122 Mt de trigo), além de 167 Mt de batatas (inglesa e doce), 162 Mt de vegetais, 146 Mt de melancia e de pepino, 129 Mt de cana de açúcar, totalizando cerca de 1,2 bilhões de toneladas de alimento.

Dado o enorme consumo de uma população de 1,4 bilhão de pessoas, a China, além de produzir muito alimento, também importa, como, por exemplo, o grão de soja brasileiro que é processado internamente e seu farelo utilizado na formulação de rações animais para produção de carnes para consumo local, mas, também, para exportação (bovina e de peixe, principalmente).

A China lidera a produção mundial de carnes com mais de 130 Mt e destaque para a carne suína (56,5 Mt) e a de peixes/crustáceos (55 Mt). O consumo de carne na China cresceu de forma exponencial a partir da década de 1990, quando teve início um agressivo programa de importação de soja, principalmente dos EUA e do Brasil. O consumo continua crescendo e demandando mais soja. O Brasil agradece.

Embora com área limitada para estabelecer grandes lavouras, a China produz muito alimento em espaços pequenos e condições controladas. A plasticultura ocupa 3,8 milhões de hectares, onde produz frutas, hortaliças e legumes. Pequenos espaços em espelhos de água de rios, lagos e oceanos são arrendados pelo governo para a produção aquícola. Berço da aquicultura, a China produz 7kg de cada 10 kg de produtos aquícolas do Planeta.

Quanto ao território, diferente do Brasil, boa parte das terras chinesas são inaproveitáveis para a agricultura, em função da alta declividade e/ou clima inadequado. O espaço verdadeiramente agrícola (135 milhões de hectares, 15 dos quais estão em recuperação, sem cultivo comercial) é ocupado por cerca de 200 milhões de pequenos empreendimentos familiares, em que 90% têm área inferior a 10.000 m² que, dado o tamanho reduzido, são explorados intensivamente e obtêm altas produtividades. Com área agricultável 25% menor do que a dos EUA, a China produz 30% mais.

Mas existem, também, empreendimentos agrícolas gigantes geridos pelo governo, ou privados, mas controlados pelo poder público, onde é possível encontrar propriedades com até 40 mil vacas em lactação ou granjas de aves produzindo 2,4 milhões de ovos por dia, tudo automatizado, onde um único trabalhador pode responsabilizar-se por cerca de 20 0mil poedeiras. No entanto, para que esses grandes empreendimentos fossem viabilizados, o governo – que permanece dono das terras – requisitou as áreas para os mega empreendimentos e deslocou os usuários dessas terras para outros lugares.

Desenvolvimento agrícola chinês avançou em 4 décadas o mesmo que o Ocidente em 150 anos. Foto: Claudio Nonaca

O desenvolvimento agrícola chinês avançou em 4 décadas o mesmo que o ocidente em 150 anos. Em 1990, quando teve início a grande virada chinesa, cerca de 25% da população era urbana. Hoje a população urbana é de 57% e continua crescendo. O consumo de carnes triplicou e o de produtos lácteos quadruplicou, aproximando a dieta dos chineses à dos ocidentais.

Não custa lembrar que a China passou muita fome nos anos 1950 e início dos anos 1960, quando Mao Tse Tung comandava o país e o governo era dono das terras e também da produção. Muitos chineses passaram fome. Mas isto é coisa do passado. As terras ainda pertencem ao governo, mas a produção é do agricultor, que se sente estimulado a produzir mais, porque tem a possibilidade de ganhar dinheiro com a comercialização da safra. O sistema de propriedades coletivas acabou em 1981, porque, igual que outros sistemas comunistas, fracassou.
Com a terra agrícola escassa, a produção chinesa é eficiente e suficiente para abastecer o mercado local e, ainda, exportar alguns produtos processados, mesmo importando a matéria prima para produzi-los, como a carne de bovinos e de peixes, parcialmente exportada para países vizinhos.