Economia afeta a demanda de alimentos

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

De acordo com o FMI, o PIB mundial está próximo de U$ 80 trilhões (tri), variando entre países, desde U$ 20,4 tri (EUA) até U$ 38 milhões (Tuvalu) e a renda média per capita supera os 100 mil dólares anuais em países como Catar, Macau, Singapura e Luxemburgo, sendo inferior a 1.000 dólares anuais em países como República Democrática do Congo e República Centro Africana.
Se bem o PIB de muitos países reage muito lentamente ao movimento global da economia, o Banco Mundial informa que no período 2017 a 2019 o PIB mundial crescerá U$ 6,5 tri, com a China representando 35,2% desse total, os EUA 17,9%, a Índia 8,6% e o Brasil, meros 1,2%. Esse crescimento desproporcional, segundo antecipa a agência Pricewaterhouse Coopers, fará da China a maior economia global em 2050 (U$ 58,5 tri), seguida pela Índia (U$ 44,1 tri) e jogando os EUA – historicamente a maior economia global – para a terceira posição (U$ 34,1 tri).

Para alimentar a população mundial haverá a necessidade de produzir mais grãos e muita carne.

Seguindo esta mesma tendência, o Banco Mundial estima que em 2050, as atuais economias do Japão (U$ 5,1 tri), Alemanha (U$ 4,2 tri), Inglaterra (U$ 2,94 tri) e França (U$ 2,93 tri) serão superadas pelas economias da Indonésia (que transitaria dos atuais U$ 0,9 tri para U$ 10,5 tri), pelo Brasil (U$ 2,4 tri para U$ 7,5 tri), pela Rússia (U$ 1,9 tri para U$ 7,1 tri) e pelo México (U$ 1,3 tri para U$ 6,8 tri).

Nesse cenário, o crescimento da economia impactará a demanda por alimentos mais do que o aumento da população, que continuará crescendo, mas não no ritmo acelerado dos anos pós guerra. Para 2050, estima-se que a população ultrapasse 9,0 bilhões; hoje são cerca de 7,5 bilhões, quase 40% deles concentrados em dois países: China e Índia. O Brasil é o 5º em população e é a 9ª maior economia global; era a 7ª até 2015, quando viu seu PIB recuar 3,5% em dois anos consecutivos (2015 e 2016).

Para alimentar essa população, que aumentou seu poder aquisitivo e nível de exigência, precisamos de muitos grãos e muita carne. A soja é, dentre os principais grãos do mundo, aquele produzido em menor quantidade, mas é o que mais cresce em termos relativos, porque é a principal fonte proteica para produzir as carnes e outras proteínas animais. A oleaginosa avançou de pouco mais de 100 milhões de toneladas (Mt) em 1990, para cerca de 370 Mt previstas para 2018/19; aumento de 270%, ante 108% do milho, 46% do arroz e 36% do trigo. A produção global de grãos estimada para a safra de 2019 pelo Conselho Internacional de Grãos, é de 2,072 bilhões de toneladas, com a liderança do milho (1,072 bilhões), seguido do trigo (717 Mt) e do arroz (491 Mt).

Este montante de grãos, segundo a FAO, é mais do que suficiente para abastecer a humanidade, mas, mesmo assim, tem quase um bilhão de cidadãos passando fome no mundo por causa do desperdício e, principalmente, pela má distribuição da renda, esta responsável por inibir muitos cidadãos de alimentar-se adequadamente porque lhes faltam recursos financeiros para adquirir a comida.

Diferente da China e da Índia, que não mais contam com áreas aptas e disponíveis em abundância para produzir mais alimentos, o Brasil conta com grandes áreas aptas e disponíveis para aumentar a produção, desde que estimulado pelo mercado. O Brasil já produz quatro vezes mais do que consome, razão pela qual está entre os maiores exportadores de alimentos. A China e a Índia precisarão cada vez mais dos alimentos que o Brasil exporta. A correlação entre o consumo de alimentos e a renda per capita da população é direta: quanto maior a renda, maior o consumo.