As inaceitáveis perdas na colheita da soja

Amélio Dall’Agnol e Jose Miguel Silveira, pesquisadores da Embrapa Soja.

Não pode haver nada mais frustrante para um agricultor do que conduzir uma lavoura rigorosamente dentro dos melhores padrões de qualidade, aplicando todas as tecnologias disponíveis e perder parte da produção na colheita – a última fase do processo produtivo – por causa da falta de monitoramento das perdas e por desajustes nos mecanismos da colhedora. Perdas iguais a zero não existem; o que existe é a possibilidade de minimiza-las e mantê-las no nível de tolerância de 1,0 saco de 60 kg/ha.

Segundo levantamento realizado pelo “Rally da Colheita”, promovido pela Associação de Plantio Direto do Vale do Paranapanema em 60 propriedades de 17 municípios da região de Assis (SP), as perdas na colheita da soja, na safra 2017/18, variaram de 0,9 saco/ha a 4,5 sacas/ha; média de 1,95 sacas/ha. Das propriedades avaliadas, 61% apresentaram perdas superiores ao montante considerado tolerável (1,0 saco/ha).

Levantamentos realizados por várias instituições, a perda média de grãos de soja no processo de colheita no Brasil é estimada em 2,0 sacos/ha, mas já foi maior. Este montante, multiplicado pelos 36 milhões de hectares cultivados com soja na presente safra (2018/2019), correspondem a cerca de R$ 4,3 bilhões por ano, com a saca valendo R$ 60,00.

Cerca de 80% das perdas na colheita estão relacionadas à falta de ajustes nos mecanismos da plataforma de corte das colhedoras, e à velocidade excessiva de deslocamento das mesmas. A velocidade ideal varia em função da condição da lavoura de soja e, em geral, situa-se entre 4,0 e 6,5 km/h. Velocidades elevadas são usadas pelos operadores por causa da pressa do produtor em colher a soja para semear o milho safrinha, pois quanto antes este for semeado após a colheita da soja, maior será seu potencial produtivo, embora precise estar ciente de que poderá aumentar a produtividade do milho, mas com certeza desperdiçará grãos de soja.

Para minimizar as perdas na colheita da soja seria desejável que a mesma fosse colhida logo após o atingimento do ponto de colheita, quando os grãos atingem um teor médio de umidade entre 13% e 15%, a partir de quando a probabilidade de perdas aumenta a cada dia, induzindo o produtor a iniciar a colheita com umidades superiores a 15%.

Para quantificar os grãos perdidos na colheita de soja, a Embrapa desenvolveu o método do Copo Medidor. Através desta metodologia, as perdas são estimadas coletando-se os grãos deixados sobre o solo, em áreas de 2,0 m² (armação de barbante com 4,0 m de largura por 0,50 m de comprimento, que acompanha o “Kit Perdas”) amostradas aleatoriamente em diversos pontos da lavoura após a passagem da colhedora. Os grãos soltos sobre o solo e os encontrados dentro das vagens são coletados e depositados no copo medidor, que por meio de leitura direta indica o volume de perdas, em sc/ha. Se o valor observado for igual ou inferior ao nível de tolerância supra indicado, o processo de colheita não é interrompido. Com valores superiores a este interrompe-se a operação para identificar a causa e corrigi-la. Reduzir as perdas é uma ótima maneira de ganhar mais dinheiro, sem produzir ou gastar mais.

Quem não sabe quanto perde, não pode saber quanto ganha.

Copo medidor de perdas na colheita de soja