O agro inspira o Brasil que queremos

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

Tem sido recorrente a veiculação de uma nota na mídia televisiva, onde se faz apologia ao agronegócio pela contribuição que o mesmo tem dado à sociedade, disponibilizando inúmeros produtos para consumo do cidadão, quem, muitas vezes, não os identifica como sendo originários do campo. São os alimentos que saciam a sua fome, as fibras que produzem os tecidos da roupa que ele veste, a celulose que dá origem ao papel dos livros que ele lê, os biocombustíveis que movimentam o carro que o leva e traz do trabalho ou os cosméticos que dão beleza ao corpo que Deus lhe deu.

Comparando a evolução do agronegócio com o de outros segmentos da economia brasileira, constata-se que o mesmo deslanchou e se distanciou dos restantes setores da economia do Brasil. Seu espetacular desenvolvimento chama a atenção, não somente de nós brasileiros, mas do mundo todo, de vez que o Brasil é tido como um país “Em Desenvolvimento”, mas quando observado desde a perspectiva agrícola, aparenta ser “Desenvolvido”. O setor agrícola desponta como o principal responsável pelos vultosos superávits anuais da balança comercial, responsável, em boa medida, pelo equilíbrio das contas do Brasil com o exterior. Foi superior a 1,0 trilhão de dólares o superávit comercial do agronegócio brasileiro no período 2000/2018, ante déficits na maioria dos demais setores.

A grande virada do agronegócio brasileiro teve início na década de 1970, quando o Brasil se descobriu com potencial para ser grande produtor e fornecedor de soja para os mercados nacional e internacional.

Mas não foram todos os produtores rurais que se beneficiaram do rápido desenvolvimento do agro brasileiro. Segundo Eliseu Alves e Daniela Rocha, 27 mil estabelecimentos agrícolas empresariais, de um total de 4,5 milhões de propriedades agrícolas, respondem por mais da metade do valor bruto da produção agrícola (R$ 574 bilhões, em 2018). A grande maioria das propriedades rurais ainda busca o caminho do sucesso, que poderá nunca chegar, porque lhes faltam as ferramentas necessárias para deslanchar: terra, domínio tecnológico, assistência técnica, máquinas modernas, e, também, mão de obra familiar, porque os jovens estão preferindo migrar para a cidade, atrás de empregos que lhes forneçam mais conforto, respeito e lazer.

O êxodo rural não é um fenômeno brasileiro. Isto também aconteceu, por exemplo, nos EUA entre as décadas de 1940 a 1980, quando mais de 60% dos estabelecimentos rurais desapareceram ou foram incorporados a outros, porque seus proprietários migraram para as cidades atrás dos empregos oferecidos pela florescente industrialização do país. A partir dos anos 90, fenômeno semelhante ocorreu e continua ocorrendo na China e, também, começa a desenhar-se na Índia, como resultado do rápido processo de industrialização desse gigante país asiático.

O campo está migrando das pequenas propriedades tocadas com muito esforço e sacrifício com mão de obra familiar, para modernos empreendimentos agrícolas altamente especializados, onde a máquina substitui gradativamente o homem com menos esforço, menor custo, maior eficiência e qualidade. Além de mais sofisticadas, as modernas máquinas têm maior rendimento operacional e maior conforto para os seus operadores.

Assim como as máquinas foram importantes na aceleração do desenvolvimento agrícola brasileiro, a biotecnologia trouxe sofisticação no desenvolvimento de novas cultivares de soja, milho e algodão, modificando seu DNA via engenharia genética e facilitando o controle de suas pragas e invasoras. Essas mudanças contribuíram para alavancar a produção agrícola brasileira, gerando excedentes exportáveis equivalentes a quatro vezes o seu consumo e que promoveram o Brasil de importador de alimentos na década de 1970 para segundo maior exportador e, segundo a ONU, a caminho da liderança global dentro de uma década.

O campo brasileiro se transformou e poderá ensinar o caminho do sucesso para outros setores da economia nacional.