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Vazio sanitário como estratégia de manejo da ferrugem da soja

. Treze estados e o Distrito Federal estabeleceram o vazio sanitário por meio de portarias, leis ou instruções normativas; entenda

07 de junho de 2019 às 08h05

Amélio Dall’Agnol e Claudine D. S. Seixas, pesquisadores da Embrapa Soja

As doenças, juntamente com os insetos-praga e as plantas daninhas, são inimigos que o agricultor precisa combater na busca pela alta produtividade que todos almejam ter. Neste espaço, nos limitaremos a comentar sobre a ferrugem-asiática, a mais severa das doenças que ocorrem na cultura da soja, capaz de zerar a produção se o ataque se fizer presente, com grande intensidade, nos primórdios da fase vegetativa e não for controlada, situação que pode ser evitada com um bom manejo da cultura.

O bom manejo da ferrugem-asiática começa na entressafra, com medidas destinadas a evitar que o fungo se multiplique entre uma safra e outra. O fungo causador da ferrugem-asiática é biotrófico (precisa de hospedeiro vivo para se desenvolver e multiplicar), por isso é importante não ter a presença de plantas vivas de soja no campo, que é a principal hospedeira do fungo. Sendo assim, o agricultor precisa evitar o cultivo da soja na entressafra e destruir as plantas voluntárias nascidas de grãos caídos durante a colheita ou perdidos pelo caminhão no trajeto entre a lavoura e os centros de processamento ou de exportação.

Para reforçar essa estratégia de manejo da ferrugem-asiática, o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento estabeleceu o vazio sanitário, cujo objetivo é eliminar as plantas de soja voluntárias na entressafra para atrasar o aparecimento da doença na safra seguinte. Ficou estabelecido que nos estados produtores de soja o assunto fosse discutido e, caso necessário, o vazio sanitário fosse estabelecido. Treze estados e o Distrito Federal estabeleceram o vazio sanitário por meio de portarias, leis ou instruções normativas.

O período mínimo do vazio sanitário é de 60 dias, visto que em resultados de pesquisa publicados, o maior período de sobrevivência do fungo em folhas destacadas no solo foi de 55 dias. Mas, para garantia, a maioria dos estados optou por estender esse período, com início e término segundo a janela de cultivo da soja em cada estado onde o mecanismo foi implantado.


Ao evitar-se a presença de plantas de soja vivas na entressafra, interrompe-se o ciclo do fungo, reduzindo a quantidade de esporos presentes no ambiente produtivo, quando do estabelecimento de nova lavoura. Os esporos do fungo se propagam facilmente pelo vento, podendo contaminar rapidamente outras plantações no entorno dos focos originais.

Com o vazio sanitário não se elimina o risco da ocorrência da doença, mas evita sua incidência nos primeiros estádios da cultura, o que poderia promover a necessidade de um número maior de aplicações e elevar o gasto com fungicidas (que foi em torno de US$ 2,8 bilhões, na safra 2017/18).

O primeiro relato sobre a presença do fungo causador da ferrugem-asiática no Brasil foi em maio de 2001, no Paraná. No entanto, sua presença no Japão já era conhecida desde 1903, sem que por lá causasse maiores preocupações, dada a prevalência de invernos muito rigorosos, os quais não permitem a sobrevivência de plantas de soja vivas na entressafra. No Brasil, no entanto, em razão das condições climáticas tropicais, esse fungo pode multiplicar-se ao longo de todo o ano, caso o vazio sanitário não seja realizado.

Quanto mais cedo o fungo atacar uma lavoura de soja, mais pulverizações podem ser necessárias, maior a exposição dos fungicidas, e maior a chance de acelerar o processo de seleção de populações resistentes a esses produtos, dificultando o manejo da doença.

Não se dispõe de cultivares imunes à doença, mas no mercado já existem cultivares de soja com gene(s) de resistência à doença, as quais não a evitam, mas reduzem a velocidade do seu desenvolvimento. Essas cultivares não dispensam o uso de fungicidas, mas podem reduzir significativamente o número de pulverizações necessárias.

Por isso, empregar as várias estratégias disponíveis para manejar a ferrugem-asiática é de fundamental importância para evitar perdas de produtividade, e o vazio sanitário que está entre elas, não elimina a ferrugem, mas pode reduzir o seu impacto e contribuir para a efetividade das outras medidas de controle.

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Vazio sanitário como estratégia de manejo da ferrugem da soja

. Treze estados e o Distrito Federal estabeleceram o vazio sanitário por meio de portarias, leis ou instruções normativas; entenda

07 de junho de 2019 às 08h05

Amélio Dall’Agnol e Claudine D. S. Seixas, pesquisadores da Embrapa Soja

As doenças, juntamente com os insetos-praga e as plantas daninhas, são inimigos que o agricultor precisa combater na busca pela alta produtividade que todos almejam ter. Neste espaço, nos limitaremos a comentar sobre a ferrugem-asiática, a mais severa das doenças que ocorrem na cultura da soja, capaz de zerar a produção se o ataque se fizer presente, com grande intensidade, nos primórdios da fase vegetativa e não for controlada, situação que pode ser evitada com um bom manejo da cultura.

O bom manejo da ferrugem-asiática começa na entressafra, com medidas destinadas a evitar que o fungo se multiplique entre uma safra e outra. O fungo causador da ferrugem-asiática é biotrófico (precisa de hospedeiro vivo para se desenvolver e multiplicar), por isso é importante não ter a presença de plantas vivas de soja no campo, que é a principal hospedeira do fungo. Sendo assim, o agricultor precisa evitar o cultivo da soja na entressafra e destruir as plantas voluntárias nascidas de grãos caídos durante a colheita ou perdidos pelo caminhão no trajeto entre a lavoura e os centros de processamento ou de exportação.

Para reforçar essa estratégia de manejo da ferrugem-asiática, o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento estabeleceu o vazio sanitário, cujo objetivo é eliminar as plantas de soja voluntárias na entressafra para atrasar o aparecimento da doença na safra seguinte. Ficou estabelecido que nos estados produtores de soja o assunto fosse discutido e, caso necessário, o vazio sanitário fosse estabelecido. Treze estados e o Distrito Federal estabeleceram o vazio sanitário por meio de portarias, leis ou instruções normativas.

O período mínimo do vazio sanitário é de 60 dias, visto que em resultados de pesquisa publicados, o maior período de sobrevivência do fungo em folhas destacadas no solo foi de 55 dias. Mas, para garantia, a maioria dos estados optou por estender esse período, com início e término segundo a janela de cultivo da soja em cada estado onde o mecanismo foi implantado.


Ao evitar-se a presença de plantas de soja vivas na entressafra, interrompe-se o ciclo do fungo, reduzindo a quantidade de esporos presentes no ambiente produtivo, quando do estabelecimento de nova lavoura. Os esporos do fungo se propagam facilmente pelo vento, podendo contaminar rapidamente outras plantações no entorno dos focos originais.

Com o vazio sanitário não se elimina o risco da ocorrência da doença, mas evita sua incidência nos primeiros estádios da cultura, o que poderia promover a necessidade de um número maior de aplicações e elevar o gasto com fungicidas (que foi em torno de US$ 2,8 bilhões, na safra 2017/18).

O primeiro relato sobre a presença do fungo causador da ferrugem-asiática no Brasil foi em maio de 2001, no Paraná. No entanto, sua presença no Japão já era conhecida desde 1903, sem que por lá causasse maiores preocupações, dada a prevalência de invernos muito rigorosos, os quais não permitem a sobrevivência de plantas de soja vivas na entressafra. No Brasil, no entanto, em razão das condições climáticas tropicais, esse fungo pode multiplicar-se ao longo de todo o ano, caso o vazio sanitário não seja realizado.

Quanto mais cedo o fungo atacar uma lavoura de soja, mais pulverizações podem ser necessárias, maior a exposição dos fungicidas, e maior a chance de acelerar o processo de seleção de populações resistentes a esses produtos, dificultando o manejo da doença.

Não se dispõe de cultivares imunes à doença, mas no mercado já existem cultivares de soja com gene(s) de resistência à doença, as quais não a evitam, mas reduzem a velocidade do seu desenvolvimento. Essas cultivares não dispensam o uso de fungicidas, mas podem reduzir significativamente o número de pulverizações necessárias.

Por isso, empregar as várias estratégias disponíveis para manejar a ferrugem-asiática é de fundamental importância para evitar perdas de produtividade, e o vazio sanitário que está entre elas, não elimina a ferrugem, mas pode reduzir o seu impacto e contribuir para a efetividade das outras medidas de controle.