Soja é ouro no estado do Tocantins

Lavoura de soja. Foto: RRRufino/Arquivo Embrapa Soja

Amélio Dall’Agnol e Leonardo José Motta Campos, pesquisadores da Embrapa Soja

A primeira onda de expansão da soja no Brasil contemplou a região Sul nos anos 1960 e 70, enquanto a segunda abrangeu o Centro-Oeste, nos anos 1980 e 90. A terceira onda aconteceu a partir dos anos 2000 na região denominada Matopiba, que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, onde a Bahia e o Maranhão já se destacavam com alguma produção de soja, mas aos quais se agregou o Piauí e o Tocantins a partir desta data.  Do conjunto dos quatro estados que conformam o acrônimo, a Bahia foi o primeira a testar a viabilidade do cultivo da oleaginosa, ainda nos anos 1970. O começo da cultura no estado foi difícil, pois, além de ser carente de infraestrutura de transporte e de armazenagem, o solo é predominantemente arenoso (mais suscetível a perdas por estiagens) e os produtores pioneiros, provenientes de regiões tradicionais no cultivo de soja, precisavam dominar o cultivo da oleaginosa em uma nova realidade edafoclimática.

Alguns desbravadores desistiram antes de encontrar o seu lugar ao sol, retornando para seus locais de origem ou buscando outras terras de Cerrado, menos vulneráveis às instabilidades climáticas. Somente a partir de 1990, a soja alcançou uma área significativa na Bahia, fechando a safra 1999/2000 com o cultivo de 635,3 mil hectares. Depois dos primeiros êxitos no extremo oeste baiano, a produção da oleaginosa deslanchou no Matopiba. Em 2019, foram produzidas 6,3 milhões de toneladas (Mt) na Bahia, 3 milhões de toneladas no Tocantins,  2,9 milhões de toneladas no Maranhão e 2,3 milhões de toneladas no Piauí.

O Tocantins foi o último dos quatro estados a aventurar-se na produção de soja, mas foi onde a cultura mais cresceu. Com isso, atualmente o estado é o segundo produtor da oleaginosa da região do Matopiba, depois da Bahia.

Caso os estados mantenham o ritmo atual de crescimento, o Tocantins poderá tornar-se o maior produtor de soja da região dentro de uma década ou menos. A área da cultura cresceu 300% no estado, desde 2006 (250.000 para 1.000.000 ha), devido ao regime pluviométrico favorável ao cultivo de soja e à adaptação de tecnologias às condições edafoclimáticas dos locais de cultivo. A partir dos anos 2.000, muitos produtores do Tocantins vieram de outras regiões do Cerrado, atraídos pelo baixo preço da terra. O sucesso da soja e a maior procura por áreas produtivas fizeram com que o valor da terra triplicasse desde 2010, embora continue menor do que em outras regiões produtoras do Cerrado, onde o cultivo da soja está consolidado há muito mais tempo.

Agricultores provenientes de diversas partes do Brasil continuam chegando ao Tocantins, buscando, principalmente, glebas de terra com pastagens degradadas e ainda disponíveis a preços razoáveis. Há aproximadamente duas décadas, o Tocantins contava com cerca de 12 milhões de hectares (Mha) de pastagens e esta área hoje não passa dos 4,0 Mha. A soja ocupou grande parte dessa área e pode avançar mais sobre as áreas restantes, dada a percepção dos proprietários de que a rentabilidade do cultivo da soja é maior do que a da produção bovina.

Em pouco mais de uma década, a soja no Tocantins evoluiu de uma lavoura quase exótica em 2000, para a atual liderança do agronegócio do estado, responsável por cerca de 83% das exportações do agronegócio. A atividade pecuária, dominante na economia estadual até o surgimento da soja, hoje responde por apenas 10% das receitas com exportações agrícolas.

O Tocantins descobriu no cultivo da soja uma importante fonte de riqueza. Entretanto, alguns aspectos podem se tornar obstáculos para a expansão da oleaginosa no estado, entre os quais: o aumento dos preços da terra; a menor oferta de áreas de pastagens degradadas; os estrangulamentos logísticos enfrentados, desde a baixa capacidade de armazenagem, aos problemas enfrentados no escoamento da safra.