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Uma oportunidade para o Brasil não desperdiçar

Amélio Dall’Agnol e Walter Fernandes Meirelles, pesquisadores da Embrapa Os Estados Unidos (EUA) tiveram problema no estabelecimento das lavouras de soja e de milho por causa do excesso de chuvas na região conhecida como “Cinturão do Milho e da Soja”. O problema, aparentemente, deveria ter afetado mais o milho, cuja melhor época de plantio se…

28 de agosto de 2019 às 08h30

Amélio Dall’Agnol e Walter Fernandes Meirelles, pesquisadores da Embrapa

Os Estados Unidos (EUA) tiveram problema no estabelecimento das lavouras de soja e de milho por causa do excesso de chuvas na região conhecida como “Cinturão do Milho e da Soja”. O problema, aparentemente, deveria ter afetado mais o milho, cuja melhor época de plantio se encerrou em 31 de maio, quando ainda havia muita área para semear. O mês de maio é o melhor mês para semear tanto a soja quanto o milho nos EUA e foi nesse período em 2019 que se registraram as maiores precipitações da história na região central do país: cerca de 300% acima da média histórica para o mês. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, nunca o plantio desses grãos esteve tão atrasado como na presente safra e atraso na época ideal de semeadura é sinalização para queda na produtividade.

Nos EUA, o seguro agrícola cobre apenas lavouras de milho e soja cujas semeaduras ocorram até 31 de maio e 15 de junho, respectivamente. Mas não existe proibição a semeaduras após essas datas, por conta e risco do agricultor. Embora para a soja o período de cobertura do seguro se estenda até meados de junho, as chuvas continuaram junho adentro de forma intensa, travando o avanço da semeadura de ambos os grãos. Tudo indica que, por não conseguirem plantar na época adequada, muitos produtores ingressarão no Programa de Prevenção de Plantio (o produtor recebe do governo federal para não plantar), reduzindo a área de plantio prevista.

Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), em meados de junho ainda restavam 40 milhões de hectares para serem semeados com soja e/ou milho e as chuvas não deram trégua em boa parte da região produtora dos dois grãos. O solo da região, se bem seja muito fértil, fisicamente oferece limitações para a operação de máquinas quando muito úmido, por causa do excesso de argila que dificulta uma secagem rápida do terreno. Diferente, por exemplo, dos solos da grande região produtora de soja e milho do Brasil (Cerrado), que possuem menor fertilidade natural, mas permitem a semeadura ou a colheita um dia após uma boa chuva, porque são solos profundos, bem drenados e de fácil manejo.

No final de junho, ainda havia produtores nos EUA semeando soja ou milho, mesmo fora da melhor janela de cultivo. É possível que boa parte da área não estabelecida com milho seja incorporada ao cultivo da oleaginosa, que também deverá ter redução de produtividade, pela época inapropriada da semeadura.

O USDA estima a safra norteamericana de soja de 2019 em 113 Mt, ante 123 para a safra brasileira de 2019/20. Apesar da estimativa de queda da safra norteamericana, não se prevê disparada dos preços no mercado mundial por causa dos elevados estoques dos EUA, remanescentes da safra anterior (50 Mt) e decorrentes da comercialização deficiente com os chineses, frente ao conflito comercial entre ambos.

Não desejamos a intensificação da adversidade aos produtores americanos – a qual nos beneficia – mas essa janela de oportunidades precisa ser aproveitada pelo Brasil, que sofre as consequências de um longo período de crescimento pífio.

Além dos benefícios advindos das más condições climáticas nos EUA, o Brasil também tira proveito da guerra comercial entre norte-americanos e chineses, que resulta em prêmios na comercialização da soja brasileira. Também, está se beneficiando da ocorrência da Peste Suína Africana (PSA) na China e outros países asiáticos que, se bem poderão importar menos soja brasileira, certamente importarão mais carnes, principalmente a suína – a mais difícil de comercializar.

Também, não se pode afirmar que o surto de PSA que vem dizimando o rebanho suíno chinês irá reduzir as importações de soja, visto que a China está buscando uma maior produção de carne de frango, mas também, de outros animais – bovinos e peixes, por exemplo. Também, está consumindo mais soja com os suínos remanescentes, retendo-os por mais tempo para abatê-los com mais peso.

As circunstâncias parecem indicar que a China manterá os atuais níveis de consumo da soja importada do Brasil, além de importar mais carnes, o que seria ainda mais desejável para a nossa balança comercial.

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Uma oportunidade para o Brasil não desperdiçar

Amélio Dall’Agnol e Walter Fernandes Meirelles, pesquisadores da Embrapa Os Estados Unidos (EUA) tiveram problema no estabelecimento das lavouras de soja e de milho por causa do excesso de chuvas na região conhecida como “Cinturão do Milho e da Soja”. O problema, aparentemente, deveria ter afetado mais o milho, cuja melhor época de plantio se…

28 de agosto de 2019 às 08h30

Amélio Dall’Agnol e Walter Fernandes Meirelles, pesquisadores da Embrapa

Os Estados Unidos (EUA) tiveram problema no estabelecimento das lavouras de soja e de milho por causa do excesso de chuvas na região conhecida como “Cinturão do Milho e da Soja”. O problema, aparentemente, deveria ter afetado mais o milho, cuja melhor época de plantio se encerrou em 31 de maio, quando ainda havia muita área para semear. O mês de maio é o melhor mês para semear tanto a soja quanto o milho nos EUA e foi nesse período em 2019 que se registraram as maiores precipitações da história na região central do país: cerca de 300% acima da média histórica para o mês. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, nunca o plantio desses grãos esteve tão atrasado como na presente safra e atraso na época ideal de semeadura é sinalização para queda na produtividade.

Nos EUA, o seguro agrícola cobre apenas lavouras de milho e soja cujas semeaduras ocorram até 31 de maio e 15 de junho, respectivamente. Mas não existe proibição a semeaduras após essas datas, por conta e risco do agricultor. Embora para a soja o período de cobertura do seguro se estenda até meados de junho, as chuvas continuaram junho adentro de forma intensa, travando o avanço da semeadura de ambos os grãos. Tudo indica que, por não conseguirem plantar na época adequada, muitos produtores ingressarão no Programa de Prevenção de Plantio (o produtor recebe do governo federal para não plantar), reduzindo a área de plantio prevista.

Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), em meados de junho ainda restavam 40 milhões de hectares para serem semeados com soja e/ou milho e as chuvas não deram trégua em boa parte da região produtora dos dois grãos. O solo da região, se bem seja muito fértil, fisicamente oferece limitações para a operação de máquinas quando muito úmido, por causa do excesso de argila que dificulta uma secagem rápida do terreno. Diferente, por exemplo, dos solos da grande região produtora de soja e milho do Brasil (Cerrado), que possuem menor fertilidade natural, mas permitem a semeadura ou a colheita um dia após uma boa chuva, porque são solos profundos, bem drenados e de fácil manejo.

No final de junho, ainda havia produtores nos EUA semeando soja ou milho, mesmo fora da melhor janela de cultivo. É possível que boa parte da área não estabelecida com milho seja incorporada ao cultivo da oleaginosa, que também deverá ter redução de produtividade, pela época inapropriada da semeadura.

O USDA estima a safra norteamericana de soja de 2019 em 113 Mt, ante 123 para a safra brasileira de 2019/20. Apesar da estimativa de queda da safra norteamericana, não se prevê disparada dos preços no mercado mundial por causa dos elevados estoques dos EUA, remanescentes da safra anterior (50 Mt) e decorrentes da comercialização deficiente com os chineses, frente ao conflito comercial entre ambos.

Não desejamos a intensificação da adversidade aos produtores americanos – a qual nos beneficia – mas essa janela de oportunidades precisa ser aproveitada pelo Brasil, que sofre as consequências de um longo período de crescimento pífio.

Além dos benefícios advindos das más condições climáticas nos EUA, o Brasil também tira proveito da guerra comercial entre norte-americanos e chineses, que resulta em prêmios na comercialização da soja brasileira. Também, está se beneficiando da ocorrência da Peste Suína Africana (PSA) na China e outros países asiáticos que, se bem poderão importar menos soja brasileira, certamente importarão mais carnes, principalmente a suína – a mais difícil de comercializar.

Também, não se pode afirmar que o surto de PSA que vem dizimando o rebanho suíno chinês irá reduzir as importações de soja, visto que a China está buscando uma maior produção de carne de frango, mas também, de outros animais – bovinos e peixes, por exemplo. Também, está consumindo mais soja com os suínos remanescentes, retendo-os por mais tempo para abatê-los com mais peso.

As circunstâncias parecem indicar que a China manterá os atuais níveis de consumo da soja importada do Brasil, além de importar mais carnes, o que seria ainda mais desejável para a nossa balança comercial.