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Veja as tecnologias que mais impactaram a produção de soja no Brasil

Graças ao avanço genético incorporado na Soja Tropical foi possível estender o cultivo da oleaginosa para todo o Brasil, incluindo os territórios em torno da linha do equador

24 de setembro de 2019 às 13h37

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

Deveria ser unanimidade o reconhecimento dos produtores rurais brasileiros de que a tecnologia foi sua grande aliada no estabelecimento e na rápida expansão da soja pelo País. A cultura evoluiu de uma quase curiosidade em 1960 (204 mil toneladas), para a principal geradora de divisas do Brasil, já no final da década seguinte (15 milhões de toneladas (Mt) em 1979). O crescimento deu-se tanto na área cultivada (1,3 milhões de hectares (Mha) em 1970 vs. 36 Mha em 2018), quanto na produtividade (1.089 kg/ha em 1970 vs. 3.362 kg/ha em 2018); crescimento de 208%.

Mas quais tecnologias foram responsáveis por tamanho sucesso? Foram várias e vamos analisá-las individualmente, começando pelo melhoramento genético, com destaque para o desenvolvimento da soja adaptada às baixas latitudes (Soja Tropical). Até 1970, o cultivo da soja no mundo se restringia a regiões de clima temperado ou, no máximo, subtropical, razão pela qual seu cultivo no Brasil se limitava ao extremo sul do território, onde a latitude oscila no entorno dos 30°S.

Graças ao avanço genético incorporado na Soja Tropical foi possível estender o cultivo da oleaginosa para todo o Brasil, incluindo os territórios próximos a 0° de latitude (em torno da linha do equador). Com isso, o principal centro produtor da oleaginosa migrou da região sul para a região central do país, onde predominam latitudes entre 12° e 20°S.

Vale ressaltar a importância do desenvolvimento da soja transgênica resistente ao herbicida glifosato, tecnologia adotada por mais de 90% dos sojicultores brasileiros, dada a facilidade no controle de plantas daninhas. Saliente-se, ainda, o grande avanço proporcionado pelo desenvolvimento de cultivares com tipo de crescimento indeterminado, que permitiram a antecipação da época de semeadura, menores problemas com acamamento e, em alguns casos, maior eficiência na aplicação de agrotóxicos na lavoura, em razão da arquitetura piramidal das plantas. Outro avanço importante foi o desenvolvimento de tecnologias que permitiram o cultivo da soja na Região do Cerrado, cujas terras eram desvalorizadas até os anos 80, em razão da elevada acidez e baixa fertilidade do solo. Nesse bioma, a técnica da calagem, realizada com base em critérios técnicos definidos pela pesquisa, foi um divisor de águas, permitindo a rápida expansão da soja e outras culturas, como o milho e o algodão.

Tão importante quanto o desenvolvimento genético e o avanço proporcionado pela incorporação do Cerrado ao processo produtivo da soja, foi a adoção do Sistema Plantio Direto (SPD). A importância do SPD na proteção e conservação do solo é imensurável, dados os benefícios que trouxe à melhoria das propriedades químicas, físicas e biológicas do solo. O SPD conferiu enorme economia com combustível e manutenção de máquinas, além de facilitar o trabalho de implantação das culturas, uma vez que dispensa o preparo com aração e/ou gradagem. Mas, apesar dos benefícios evidentes do sistema, muitos agricultores estão descumprindo as regras básicas do sistema e a erosão do solo está retornando em muitas propriedades.

O SPD começou timidamente a ser utilizado no início dos anos 70, mas patinou por duas décadas, até estabelecer-se no início dos anos 90, apoiado pelo término de vigência da patente do herbicida glifosato, o que promoveu queda acentuada do seu preço no mercado, permitindo seu uso generalizado na dessecação pré-semeadura. Sua adoção favoreceu a antecipação dos plantios, principalmente do milho após a colheita da soja, podendo-se afirmar que o surgimento do milho safrinha tem tudo a ver com a adoção do SPD.

Não menos importante que os avanços tecnológicos relatados acima, foi o desenvolvimento da tecnologia da fixação biológica do nitrogênio, a qual permitiu substituir integralmente o uso dos fertilizantes nitrogenados minerais (muito caros), pela inoculação com bactérias do gênero Rhizobium, capazes de fixar o nitrogênio diretamente do ar atmosférico, a um custo irrisório.

Embora seja um desenvolvimento tecnológico recente, a integração lavoura-pecuária já deslancha, apresentando ótimos resultados na recuperação de solos degradados – pastagens, principalmente. É um sistema ganha/ganha, pois o produtor de grãos é beneficiado pela rotação com as pastagens, resultando no controle das pragas, doenças e plantas daninhas presentes na lavoura e na melhoria das condições físicas do solo, dada a abundância do sistema radicular das gramíneas. O pecuarista, por sua vez, se beneficia com o estabelecimento da lavoura sobre a pastagem, porque a lavoura melhora as condições químicas do solo, potencializando a produção da pastagem em sucessão.

Entre outros avanços tecnológicos que impactaram no desenvolvimento da soja brasileira, se destacam os aperfeiçoamentos realizados no manejo do solo e da cultura e no enorme avanço no maquinário, o qual proporciona maior eficiência na semeadura, tratos culturais e colheita. E para finalizar, não podemos esquecer da agricultura de precisão e do uso que ela faz do GPS e dos drones, ainda limitados aos produtores de elite, mas em via de tornarem-se populares.

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Veja as tecnologias que mais impactaram a produção de soja no Brasil

Graças ao avanço genético incorporado na Soja Tropical foi possível estender o cultivo da oleaginosa para todo o Brasil, incluindo os territórios em torno da linha do equador

24 de setembro de 2019 às 13h37

Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

Deveria ser unanimidade o reconhecimento dos produtores rurais brasileiros de que a tecnologia foi sua grande aliada no estabelecimento e na rápida expansão da soja pelo País. A cultura evoluiu de uma quase curiosidade em 1960 (204 mil toneladas), para a principal geradora de divisas do Brasil, já no final da década seguinte (15 milhões de toneladas (Mt) em 1979). O crescimento deu-se tanto na área cultivada (1,3 milhões de hectares (Mha) em 1970 vs. 36 Mha em 2018), quanto na produtividade (1.089 kg/ha em 1970 vs. 3.362 kg/ha em 2018); crescimento de 208%.

Mas quais tecnologias foram responsáveis por tamanho sucesso? Foram várias e vamos analisá-las individualmente, começando pelo melhoramento genético, com destaque para o desenvolvimento da soja adaptada às baixas latitudes (Soja Tropical). Até 1970, o cultivo da soja no mundo se restringia a regiões de clima temperado ou, no máximo, subtropical, razão pela qual seu cultivo no Brasil se limitava ao extremo sul do território, onde a latitude oscila no entorno dos 30°S.

Graças ao avanço genético incorporado na Soja Tropical foi possível estender o cultivo da oleaginosa para todo o Brasil, incluindo os territórios próximos a 0° de latitude (em torno da linha do equador). Com isso, o principal centro produtor da oleaginosa migrou da região sul para a região central do país, onde predominam latitudes entre 12° e 20°S.

Vale ressaltar a importância do desenvolvimento da soja transgênica resistente ao herbicida glifosato, tecnologia adotada por mais de 90% dos sojicultores brasileiros, dada a facilidade no controle de plantas daninhas. Saliente-se, ainda, o grande avanço proporcionado pelo desenvolvimento de cultivares com tipo de crescimento indeterminado, que permitiram a antecipação da época de semeadura, menores problemas com acamamento e, em alguns casos, maior eficiência na aplicação de agrotóxicos na lavoura, em razão da arquitetura piramidal das plantas. Outro avanço importante foi o desenvolvimento de tecnologias que permitiram o cultivo da soja na Região do Cerrado, cujas terras eram desvalorizadas até os anos 80, em razão da elevada acidez e baixa fertilidade do solo. Nesse bioma, a técnica da calagem, realizada com base em critérios técnicos definidos pela pesquisa, foi um divisor de águas, permitindo a rápida expansão da soja e outras culturas, como o milho e o algodão.

Tão importante quanto o desenvolvimento genético e o avanço proporcionado pela incorporação do Cerrado ao processo produtivo da soja, foi a adoção do Sistema Plantio Direto (SPD). A importância do SPD na proteção e conservação do solo é imensurável, dados os benefícios que trouxe à melhoria das propriedades químicas, físicas e biológicas do solo. O SPD conferiu enorme economia com combustível e manutenção de máquinas, além de facilitar o trabalho de implantação das culturas, uma vez que dispensa o preparo com aração e/ou gradagem. Mas, apesar dos benefícios evidentes do sistema, muitos agricultores estão descumprindo as regras básicas do sistema e a erosão do solo está retornando em muitas propriedades.

O SPD começou timidamente a ser utilizado no início dos anos 70, mas patinou por duas décadas, até estabelecer-se no início dos anos 90, apoiado pelo término de vigência da patente do herbicida glifosato, o que promoveu queda acentuada do seu preço no mercado, permitindo seu uso generalizado na dessecação pré-semeadura. Sua adoção favoreceu a antecipação dos plantios, principalmente do milho após a colheita da soja, podendo-se afirmar que o surgimento do milho safrinha tem tudo a ver com a adoção do SPD.

Não menos importante que os avanços tecnológicos relatados acima, foi o desenvolvimento da tecnologia da fixação biológica do nitrogênio, a qual permitiu substituir integralmente o uso dos fertilizantes nitrogenados minerais (muito caros), pela inoculação com bactérias do gênero Rhizobium, capazes de fixar o nitrogênio diretamente do ar atmosférico, a um custo irrisório.

Embora seja um desenvolvimento tecnológico recente, a integração lavoura-pecuária já deslancha, apresentando ótimos resultados na recuperação de solos degradados – pastagens, principalmente. É um sistema ganha/ganha, pois o produtor de grãos é beneficiado pela rotação com as pastagens, resultando no controle das pragas, doenças e plantas daninhas presentes na lavoura e na melhoria das condições físicas do solo, dada a abundância do sistema radicular das gramíneas. O pecuarista, por sua vez, se beneficia com o estabelecimento da lavoura sobre a pastagem, porque a lavoura melhora as condições químicas do solo, potencializando a produção da pastagem em sucessão.

Entre outros avanços tecnológicos que impactaram no desenvolvimento da soja brasileira, se destacam os aperfeiçoamentos realizados no manejo do solo e da cultura e no enorme avanço no maquinário, o qual proporciona maior eficiência na semeadura, tratos culturais e colheita. E para finalizar, não podemos esquecer da agricultura de precisão e do uso que ela faz do GPS e dos drones, ainda limitados aos produtores de elite, mas em via de tornarem-se populares.