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Custos de produção e renda do agricultor

Altas produtividades não necessariamente implicam em bons lucros

05 de novembro de 2019 às 10h44

Amélio Dall’Agnol e Marco Antônio Nogueira, pesquisadores da Embrapa Soja

O que mais preocupa um produtor rural é o resultado financeiro da safra, o qual resulta dos valores auferidos pela comercialização da produção, menos os valores gastos na sua obtenção. Altas produtividades não necessariamente implicam em bons lucros, visto que para obtê-las o agricultor pode comprometer mais recursos financeiros do que o razoável.


Setembro-outubro é a janela preferida pelos agricultores para estabelecer suas lavouras de primavera/verão e é quando se intensificam as preocupações com o clima, mas também com os custos dos insumos de produção – fertilizantes, sementes e agrotóxicos, principalmente – cujos preços costumam subir no período da pre-semeadura.

A maior parte dos agrotóxicos e dos fertilizantes são importados, razão pela qual seus preços oscilam com as variações do real frente ao dólar, sendo difícil estimar o momento mais favorável para concretizar a compra desses insumos, que poderá ser favorecida pelo pagamento à vista e antecipado. Mas para que isto possa acontecer, o agricultor precisa preparar-se, acumulando reservas financeiras nas safras anteriores. Outra estratégia para reduzir os custos da lavoura, poderia ser a aquisição de grandes quantidades de insumos juntando as demandas de vários produtores, o que permitiria negociar melhores preços pela quantidade adquirida.

Dada a insegurança que impera nas propriedades localizadas em áreas isoladas, não é aconselhável estocar os insumos (agrotóxicos, principalmente) na propriedade por um longo período. É mais seguro deixar o produto estocado junto ao fornecedor, retirando-o aos poucos conforme as necessidades da lavoura, tendo o cuidado de avaliar os potencias custos da estocagem, que poderia não existir como contrapartida do fornecedor.

Os preços dos insumos, assim como o valor da produção, oscilam em função de diversos fatores, como o balanço de oferta e demanda e a taxa cambial. É preciso trazer as contas “na ponta do lápis” para se conhecer o real ganho ao final da safra ou, infelizmente em algumas situações, prejuízo. Diante disso, para tentar ampliar sua renda, os produtores podem realizar vendas antecipadas da safra em desenvolvimento ou vendê-la aos poucos, aproveitando picos de alta. Nesse contexto, se o produtor sabe quanto gastou, ele saberá por quanto poderá vender para ter lucro.

Em relação à racionalização dos custos de produção, merece destaque a fixação biológica de nitrogênio (FBN), a qual dispensa o uso de fertilizantes nitrogenados na adubação da soja. A FBN pode representar uma economia de cerca de R$ 900/ha, considerando uma produtividade de 3,0 toneladas/ha. Isto se deve ao fato de que cada tonelada do grão exige 80 kg de N e que a ureia (45% de N) custa cerca de R$ 1.700/tonelada. O uso de uma formulação de fertilizante na cultura da soja que contenha N só se justifica se custar menos que uma formulação sem N para a mesma quantidade de P e K fornecidos, e ainda assim, não forneça mais do que 20 kg/ha de N, pois acima disso começa inibir a FBN. Esses 20 kg de N são tolerados, não recomendados. Além dos custos econômicos, a FBN também reduz os custos ambientais, já que para cada tonelada de amônia – essencial para a síntese dos fertilizantes nitrogenados – são empregados seis barris de petróleo. Além disso, a FBN diminui os riscos de contaminação por nitrato, de águas superficiais e subterrâneas.

Com os agrotóxicos, a conta é a mesma. Por exemplo, o percevejo não causa danos às plantas antes que as mesmas estejam na fase reprodutiva, de tal forma que não faz sentido realizar pulverizações para controlá-los no período vegetativo. Neste caso, é importante utilizar as práticas preconizadas pelo Manejo Integrado de Pragas. Em relação à ferrugem asiática, a doença raramente incide em períodos anteriores à floração, mas alguns agricultores insistem em realizar o tratamento preventivo, mesmo quando a doença ainda não se faz presente na região ou quando não há condições climáticas favoráveis ao seu desenvolvimento. Aumento desnecessário dos custos de produção.

Obter boas produtividades continua sendo uma meta fundamental para o produtor, mas é menos importante que a renda obtida pela atividade produtiva.

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Custos de produção e renda do agricultor

Altas produtividades não necessariamente implicam em bons lucros

05 de novembro de 2019 às 10h44

Amélio Dall’Agnol e Marco Antônio Nogueira, pesquisadores da Embrapa Soja

O que mais preocupa um produtor rural é o resultado financeiro da safra, o qual resulta dos valores auferidos pela comercialização da produção, menos os valores gastos na sua obtenção. Altas produtividades não necessariamente implicam em bons lucros, visto que para obtê-las o agricultor pode comprometer mais recursos financeiros do que o razoável.


Setembro-outubro é a janela preferida pelos agricultores para estabelecer suas lavouras de primavera/verão e é quando se intensificam as preocupações com o clima, mas também com os custos dos insumos de produção – fertilizantes, sementes e agrotóxicos, principalmente – cujos preços costumam subir no período da pre-semeadura.

A maior parte dos agrotóxicos e dos fertilizantes são importados, razão pela qual seus preços oscilam com as variações do real frente ao dólar, sendo difícil estimar o momento mais favorável para concretizar a compra desses insumos, que poderá ser favorecida pelo pagamento à vista e antecipado. Mas para que isto possa acontecer, o agricultor precisa preparar-se, acumulando reservas financeiras nas safras anteriores. Outra estratégia para reduzir os custos da lavoura, poderia ser a aquisição de grandes quantidades de insumos juntando as demandas de vários produtores, o que permitiria negociar melhores preços pela quantidade adquirida.

Dada a insegurança que impera nas propriedades localizadas em áreas isoladas, não é aconselhável estocar os insumos (agrotóxicos, principalmente) na propriedade por um longo período. É mais seguro deixar o produto estocado junto ao fornecedor, retirando-o aos poucos conforme as necessidades da lavoura, tendo o cuidado de avaliar os potencias custos da estocagem, que poderia não existir como contrapartida do fornecedor.

Os preços dos insumos, assim como o valor da produção, oscilam em função de diversos fatores, como o balanço de oferta e demanda e a taxa cambial. É preciso trazer as contas “na ponta do lápis” para se conhecer o real ganho ao final da safra ou, infelizmente em algumas situações, prejuízo. Diante disso, para tentar ampliar sua renda, os produtores podem realizar vendas antecipadas da safra em desenvolvimento ou vendê-la aos poucos, aproveitando picos de alta. Nesse contexto, se o produtor sabe quanto gastou, ele saberá por quanto poderá vender para ter lucro.

Em relação à racionalização dos custos de produção, merece destaque a fixação biológica de nitrogênio (FBN), a qual dispensa o uso de fertilizantes nitrogenados na adubação da soja. A FBN pode representar uma economia de cerca de R$ 900/ha, considerando uma produtividade de 3,0 toneladas/ha. Isto se deve ao fato de que cada tonelada do grão exige 80 kg de N e que a ureia (45% de N) custa cerca de R$ 1.700/tonelada. O uso de uma formulação de fertilizante na cultura da soja que contenha N só se justifica se custar menos que uma formulação sem N para a mesma quantidade de P e K fornecidos, e ainda assim, não forneça mais do que 20 kg/ha de N, pois acima disso começa inibir a FBN. Esses 20 kg de N são tolerados, não recomendados. Além dos custos econômicos, a FBN também reduz os custos ambientais, já que para cada tonelada de amônia – essencial para a síntese dos fertilizantes nitrogenados – são empregados seis barris de petróleo. Além disso, a FBN diminui os riscos de contaminação por nitrato, de águas superficiais e subterrâneas.

Com os agrotóxicos, a conta é a mesma. Por exemplo, o percevejo não causa danos às plantas antes que as mesmas estejam na fase reprodutiva, de tal forma que não faz sentido realizar pulverizações para controlá-los no período vegetativo. Neste caso, é importante utilizar as práticas preconizadas pelo Manejo Integrado de Pragas. Em relação à ferrugem asiática, a doença raramente incide em períodos anteriores à floração, mas alguns agricultores insistem em realizar o tratamento preventivo, mesmo quando a doença ainda não se faz presente na região ou quando não há condições climáticas favoráveis ao seu desenvolvimento. Aumento desnecessário dos custos de produção.

Obter boas produtividades continua sendo uma meta fundamental para o produtor, mas é menos importante que a renda obtida pela atividade produtiva.