O que o agronegócio tem a ver com o avanço do desmatamento

A Nature Climate Change, uma das revistas científicas mais renomadas do mundo, publicou um estudo assinado por 10 pesquisadores brasileiros, alegando que o retrocesso ambiental pode custar ao Brasil US$ 5 trilhões até 2050. O material, intitulado ” A ameaça da barganha política para a mitigação climática no Brasil” aponta que em troca de apoio político, o governo brasileiro enfraqueceu regras ambientais e colocou em risco a contribuição do país com o acordo de Paris (acordo em que quase 200 países concordaram em agir para frear o aquecimento do planeta).

Para Eduardo Assad, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e um dos principais especialistas em mudanças climáticas do Brasil, o estudo acerta quando afirma que o avanço do desmatamento tem a ver com o que ele chama de “ruralismo conservador”, prática do século XIX com teses de especulação imobiliária, de que é preciso desmatar para ganhar dinheiro.

“Essa é uma tese que a gente já tem defendido há muito tempo. É importante separar o joio do trigo, a agricultura brasileira tem avançado muito e tem mostrado que com a intensificação agrícola não tem necessidade de desmatamento, nós podemos dobrar nossa produção agrícola sem fazer isso”, afirma Assad.

Afinal, o que o agronegócio tem a ver com o avanço do desmatamento?

“Não tem a ver,  nós temos hoje um agronegócio consciente, um agronegócio que sabe que sem meio ambiente ele não existe. Somos uma potência agroambiental”, enfatiza. Para ele, as medidas provisórias e decretos que diminuem as exigências do licenciamento ambiental e demarcação de terras indígenas facilitam que grileiros, posseiros e criminosos que estão no campo façam o desmatamento.

Assista no vídeo a entrevista completa com Eduardo Assad:

Leia o bate-papo completo com o pesquisador, que é referência em mudanças climáticas no Brasil:

O avanço do desmatamento no Brasil tem a ver com o ruralismo conservador? 

Assad: Essa é uma tese que a gente já tem defendido há muito tempo. É importante separar o joio do trigo, a agricultura brasileira tem avançado muito e tem mostrado que com a intensificação agrícola não tem necessidade de desmatamento, nós podemos dobrar nossa produção agrícola sem fazer isso. Por conta desse tipo de análise que tem sido feita desde os anos 90, o Brasil  renegociou a proposta de emissão de carbono, assunto que o mundo inteiro está preocupado.  No entanto, vem o presidente Temer e começa assinar medidas provisórias e decretos que diminuem as exigências do licenciamento ambiental e demarcação de terras indígenas e isso facilita que grileiros, posseiros e criminosos que estão no campo hoje cheguem lá e façam esse tipo de desmatamento. O que estamos vendo? Um recrudescimento do desmatamento, que está aumentando na Amazônia. Nós tivemos uma notícia muito boa, que teve uma redução do desmatamento no cerrado, informação do Ministério da Agricultura, porém nós tivemos nos últimos 20 anos 3 situações que estão traçadas nesse trabalho.

A primeira, que é a governança fraca, que foi o que aconteceu antes de 2005, ou seja, chegou a ter um nível de desmatamento de 27 mil km quadrados; Depois uma governança forte, onde houve o embargo dos municípios desmatadores e a partir daí mudou o uso da terra e o desmatamento caiu para 4 mil km quadrados; E depois foi aprovado o Código Florestal, fizemos o CAR (Cadastramento Ambiental Rural) e estamos começando a implementaros planos de revegetação. Nós estávamos começando a ter uma política excelente, mas o governo vai lá e assina essa coisa para agradar determinados grupos de ruralistas.

O que é agronegócio e o que é o que você chama de ruralismo conservador?Há o risco de ter a pecha de que o desmatamento é culpa do agronegócio brasileiro?

Assad: Não, nós temos hoje um agronegócio consciente, um agronegócio que sabe que sem meio ambiente ele não existe. Somos uma potência agroambiental, porém existe ainda um grupo muito forte que trabalha com as teses do século XIX, com teses de especulação imobiliária, de que é preciso desmatar para ganhar dinheiro. Nós podemos ganhar muito dinheiro com a tecnologia que nós temos, com o conhecimento de agricultura tropical, nós não podemos deixar que essas pessoas dominem as coisas boas que foram conquistadas pela agricultura e pelo meio ambiente brasileiro. Nós somos protagonistas nessas histórias. Então, quando você começa a mostrar que tá subindo o desmatamento na Amazônia, que o presidente da República começa a afrouxar as legislações que tem (nós praticamente não temos ministério do meio ambiente), fica complicado. Isso vai custar muito caro para o Brasil, pois nós firmamos acordos internacionais e os acordos precisam ser cumpridos.