Entenda por que a Rússia pode suspender importação da soja brasileira

A Rússia pode suspender a importação de soja brasileira, temporariamente, até que o Brasil apresente os esclarecimentos solicitados já que foi detectada presença de glifosato (herbicida usado no combate à plantas daninhas) acima da dosagem permitida pela legislação russa. Segundo o secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, José Guilherme, a Rússia não sinalizou pelo embargo, apesar de ter essa possibilidade no memorando.

“A suspensão é uma das prerrogativas, mas não foi aventada essa possibilidade no momento. Vamos oferecer um prazo à Rússia para prestar os devidos esclarecimentos. O ministério (da Agricultura) vai identificar o exportador, fazer todo o levantamento para que possamos prestar as informações à contento para as autoridades russas. Eles pediram um reforço de controle, enquanto isso, e nós vamos fornecer esse reforço”, disse.

Segundo o diretor-geral da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais, Sergio Mendes, essa é uma situação normal, já que a Rússia é um país exigente. Para o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), André Nassar, é preciso entender o que aconteceu e dar as garantias que os russos querem.

“Não é bom para o mercado esse tipo de problema, mas não é para esse tipo de problema gerar qualquer mudança em como o mercado funciona. Os casos passados nos dizem que esse tipo de evento tem que ser resolvido com rapidez”, enfatiza

A Aprosoja Brasil, por meio de nota, informou que está segura quanto às técnicas de aplicação por parte dos produtores e quanto ao respeito aos níveis de glicosado da soja brasileira.

“O ministério da Agricultura através do Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes faz análises periódicas em produtos de origem vegetal nas quais 100% das amostras de soja estavam dentro dos limites permitidos por lei. O nível de resíduo de glifosato da soja brasileira tem sido testado e aprovado para consumo interno e aceito no mercado internacional, sendo a nossa soja importada pela China, União Europeia e por diversos outros países”, diz o texto.

De acordo com dados do Ministério da Indústria e Comércio Exterior, a Rússia é o quinto maior importador de soja brasileira. Em 2018, O Brasil exportou 83,36 milhões de toneladas de soja e desse total 1,09 milhões de toneladas foram para a Rússia, o que representa 1,3% do volume embarcado do produto brasileiro.

Veja a entrevista completa com o secretario de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura:

Qual é o tom das negociações com a Rússia e o que eles querem que o Brasil faça agora?

Nós recebemos a notificação de resultado de análises efetuadas pelos controles russos em soja enviados pelo Brasil, recebemos ontem e já agendamos para hoje cedo a realização de uma videoconferência com os técnicos e autoridades da Rússia onde eles reforçaram os pedidos de esclarecimentos sobre as razões dessa identificação.

Nos causou um certo estranhamento porque é um produto que é aplicado no meio da cultura. Uma soja que possivelmente foi colhida entre março e abril do ano passado e exportada em novembro. Não é uma detecção normal, é uma situação atípica que o ministério da agricultura vai identificar a partir de agora.

Alguns órgãos da imprensa chegaram a dizer que a Rússia estaria ameaçando suspender a comprar da soja brasileira. Isso é verdade?

A suspensão é uma das prerrogativas, mas não foi aventada essa possibilidade no momento. Vamos oferecer um prazo à Rússia para prestar os devidos esclarecimentos. O ministério vai identificar o exportador, fazer todo o levantamento para que possamos prestar as informações à contento para as autoridades russas.

O Brasil está seguindo as regras internacionais ou a Rússia é um mercado mais exigente?

O Brasil segue as regras internacionais e, digo mais, o nosso próprio limite para essas aplicações é um pouco mais restritivo. Nós fazemos essas avaliações no programa de controle de resíduos com regularidade e não temos violação no caso de glifosato em soja.

Como exportadores, no entanto, temos que seguir as exigências colocadas pelo país que compra.

Essa notícia causa preocupação ao produtor brasileiro, com possíveis impactos que pode gerar ao mercado. Você acha que o Brasil está errando ao fazer a verificação na quantidade de químicos nos produtos exportados ou foi um caso isolado?

Foi um caso isolado no meu entendimento. Exportamos para vários países e temos o controle tanto para o que é consumido aqui internamente como para exportação.

Quando temos uma ocorrência dessa, nós abrimos um processo de investigação, assim como fazemos com os produtos que importamos. É um procedimento normal a comunicação ao país exportador para fazer esse tipo de investigação.

A rapidez nessa investigação, neste caso, é fundamental. Correto?

Nós vamos mandar a proposta de prazo para a Rússia na segunda-feira. Como depende de uma investigação à campo, para averiguar a rastreabilidade do lote do navio, vamos precisar de uma a duas semanas para concluir a investigação.

A Rússia se mostrou disposta a não embargar os produtos brasileiros diante deste problema?

Eles não sinalizaram pelo embargo, apesar de ser uma possibilidade que está no memorando. Eles pediram um reforço de controle, enquanto isso, e nós vamos fornecer esse reforço.

Você acredita que esse caso pode refletir em outros países?

Acredito que não, porque o limite praticado na Rússia é muito abaixo dos demais países e do parâmetro internacional. Não podemos descartar essa possibilidade, mas acredito que não vai ocorrer, pois o Brasil é um grande exportador de soja há muito tempo e tem os seus controles.

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